Por Maria Clara Padoveze e Rosely Moralez de Figueiredo
Florence Nightingale (1820–1910) é amplamente conhecida como a fundadora da enfermagem contemporânea e que também alcançou resultados inéditos na prevenção de infecção hospitalar. Para além disso, sua contribuição extrapola estes dois campos, destacando-se também por sua atuação inovadora na epidemiologia, no uso de métodos estatísticos aplicados à saúde e por sua influência decisiva na reforma dos serviços hospitalares britânicos
Florence era uma mulher oriunda de família nobre. Convidada para atuar na Guerra da Criméia para cuidar dos soldados britânicos no hospital de Scutari, recrutou uma elite de mulheres jovens interessadas em se dedicar à causa.
Em seus trabalhos iniciais, desenvolveu uma análise de dados relativos à mortalidade, incluindo a distribuição temporal dos óbitos e suas causas, revelando que as mortes de soldados devido à falta de higiene pessoal e ambiental, eram dez vezes mais frequentes do que a mortalidade nos campos de batalha. Em outras palavras, a transmissão hospitalar de cólera, diarreia e outras infecções matavam mais do que os ferimentos de guerra! Essa informação chocou a sociedade britânica, em um momento em que ainda não se dispunha de evidências sobre a existência de microrganismos.
A atuação de Florence na Guerra da Crimeia, liderando sua equipe de enfermagem, representa um marco na incorporação da estatística à prática em saúde. Audaciosamente para sua época, Florence apresentou estes resultados para o Parlamento Britânico, usando o diagrama da rosa (“Florence Nightingale Coxcomb”) que permitiu uma comunicação clara e convincente das suas observações. Dessa forma, pode-se considerar que o uso da estatística, por Florence, consolidou os fundamentos para o desenvolvimento de práticas baseadas em evidências no campo da saúde.
Posteriormente ao correlacionar tais achados com as condições ambientais e sanitárias dos hospitais, demonstrou empiricamente o impacto de intervenções relacionadas à higiene, ventilação e organização do cuidado na redução das taxas de mortalidade. A melhoria dos seus padrões de higiene gerou uma diminuição, registrada, na mortalidade de 33% para 2%. As histórias sobre sua liderança no cuidado de enfermagem, rigoroso, mas compassivo, repercutiram por todo o mundo britânico, alçando Florence o status de figura feminina mais proeminente naquela sociedade, depois apenas da Rainha Vitória, e mobilizando poemas, cartas aos familiares, e outras formas de reconhecimento imediato ao seu trabalho, por parte dos soldados.
Em pleno século XIX Florence Nightingale já associava a limpeza e organização ambiental à redução de infecções, coletando dados para provar a eficácia dessas medidas, o que foi um precursor da vigilância epidemiológica em ambientes hospitalares.

Figura: Diagrama da Rosa de Florence Nithingale: área azul (externa): mortes por doenças infecciosas, as quais eram amplamente evitáveis com saneamento e higiene; área rosa (centro): mortes diretas por ferimentos de batalha; área preta (intermediária): mortes por outras causas.
Para além das suas ações na Criméia, as ideias de Florence influenciaram a tomada de decisão e de reformas no sistema de saúde militar e, posteriormente, no modelo de organização dos hospitais em todo o império britânico, incluindo a Índia. A despeito de atualizações necessárias das medidas de Florence à luz dos conhecimentos correntes de microbiologia, os seus princípios de higiene para prevenção de infecção são ainda um legado inegável.
Florence Nightingale: uma mulher extraordinária que foi capaz de influenciar simultaneamente as áreas de prevenção e controle de infecção, enfermagem, epidemiologia e organização dos serviços de saúde, demonstrando a relação entre condições ambientais, qualidade do cuidado e mortalidade.
Maria Clara Padoveze é professora associada sênior do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Autora de diversos artigos científicos e capítulos de livro na área de prevenção e controle de infecções relacionadas à assistência à saúde. Atuou como consultora da Organização Mundial de Saúde para apoio à epidemias e pandemias.
Rosely Moralez de Figueiredo é professora titular sênior do departamento de enfermagem na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autora de diversos artigos científicos e capítulos de livro na área de prevenção e controle de infecções relacionadas à assistência à saúde. É docente1 permanente do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFSCar.
