O que é o Stewardship Antimicrobiano?
A resistência aos antimicrobianos é uma das principais ameaças globais à saúde pública. Diante desse cenário, os serviços de saúde vêm fortalecendo estratégias conhecidas como Stewardship Antimicrobiano, ou Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos (PROA), no Brasil.
A proposta é garantir que cada paciente receba o antimicrobiano mais adequado para sua condição clínica, considerando indicação correta, dose, duração e necessidade de ajustes ao longo do tratamento.
Para orientar profissionais de saúde e as Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIHs), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) destaca a importância das diretrizes nacionais e internacionais que estruturam essa prática e contribuem para um cuidado mais seguro.
O papel das diretrizes nacionais e da Saúde Única
A implementação dos PROAs nos hospitais brasileiros segue referências regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que orientam a criação de equipes multidisciplinares envolvendo médicos, farmacêuticos, enfermeiros e profissionais da microbiologia.
Essas equipes acompanham indicadores clínicos, padrões de resistência, consumo de antimicrobianos e resultados assistenciais, promovendo decisões baseadas em evidências.
Em uma visão ampliada, essas iniciativas fazem parte do conceito de Saúde Única, que reconhece a relação entre saúde humana, animal e ambiental. A resistência microbiana não surge de forma isolada: ela é influenciada pelo uso de antimicrobianos em diferentes contextos e pela circulação de microrganismos resistentes.
Ferramentas para apoiar a decisão clínica
Na prática assistencial, médicos e equipes multiprofissionais precisam avaliar continuamente qual é a melhor estratégia terapêutica para cada paciente.
Uma das ferramentas utilizadas internacionalmente é a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que organiza os antimicrobianos em três grupos:
Acesso: medicamentos indicados para infecções frequentes, que devem estar disponíveis e ser utilizados de forma adequada.
Alerta: antimicrobianos com maior potencial de favorecer resistência, que exigem maior acompanhamento e critérios mais rigorosos de uso.
Reserva: opções destinadas a situações específicas, geralmente relacionadas a infecções por microrganismos multirresistentes, com uso altamente controlado.
Essa abordagem auxilia os serviços de saúde a equilibrar acesso ao tratamento e preservação da eficácia dos medicamentos.
Reavaliação da terapia e importância do laboratório
O Stewardship Antimicrobiano não termina após a prescrição inicial. Uma etapa fundamental é a reavaliação da terapia, frequentemente realizada entre 48 e 72 horas após o início do tratamento.
Nesse momento, a equipe analisa a evolução clínica do paciente, resultados laboratoriais e dados microbiológicos para decidir se o antimicrobiano deve ser mantido, ajustado, substituído por uma opção mais direcionada ou suspenso.
O laboratório de microbiologia tem papel essencial nesse processo. Exames como culturas e testes de sensibilidade ajudam a identificar os microrganismos envolvidos e orientam terapias mais precisas, contribuindo para reduzir o uso desnecessário de antimicrobianos.
Principais pilares do Stewardship Antimicrobiano
A implementação efetiva de um PROA contribui para melhorar a qualidade da assistência, reduzir eventos adversos relacionados aos medicamentos e preservar a eficácia dos antimicrobianos.
Entre as principais estratégias estão:
- Auditoria e acompanhamento das prescrições por equipes especializadas, incluindo infectologia e farmácia clínica;
- Desenvolvimento e atualização de protocolos institucionais conforme o perfil microbiológico de cada serviço;
- Educação permanente das equipes assistenciais;
- Avaliação da possibilidade de transição da terapia intravenosa para via oral quando indicada;
- Revisão das profilaxias antimicrobianas em procedimentos cirúrgicos, respeitando critérios de indicação e duração.
O Stewardship Antimicrobiano representa uma ferramenta essencial para a segurança do paciente e para o enfrentamento da resistência bacteriana. Ao promover decisões mais qualificadas, contribui para um cuidado mais eficiente hoje e para a preservação dos tratamentos disponíveis no futuro.
Referências
ASSEF, A. P. D. C.; SANTOS, L. M. L.; ZAHNER, V. (Org.). Superbactérias resistentes a antimicrobianos. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2025.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, 2017.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Antimicrobial stewardship programmes in health-care facilities in low- and middle-income countries: a WHO practical toolkit. Genebra: WHO, 2019.
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no Âmbito de Uma Só Saúde 2026-2030. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Antibioticoterapia em Cuidado Paliativo v.1. Prática Médica (Pathways). São Paulo: Hospital Israelita Albert Einstein, 2026.
