O próximo surto infeccioso, ou até mesmo uma nova pandemia, tende a ter início antes de chegar aos hospitais. Ele chega primeiro em uma floresta desmatada, em uma área de expansão urbana ou em um ambiente onde o contato entre seres humanos, animais silvestres e vetores se torna cada vez mais frequente. Por isso, especialistas alertam que prevenir futuras pandemias depende de reconhecer que a saúde humana, animal e ambiental estão diretamente conectadas.
O que são as zoonoses e qual o impacto do desmatamento no contágio humano?
As zoonoses são doenças infecciosas que podem ser transmitidas naturalmente entre animais e seres humanos. Essas infecções causadas por diferentes agentes (como vírus, bactérias, parasitas ou fungos) representam uma ponte entre as espécies.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da iniciativa One Health (Saúde Única), cerca de 60% das doenças infecciosas humanas conhecidas têm origem animal, enquanto 75% das doenças infecciosas emergentes são zoonoses. Entre os principais fatores associados ao surgimento dessas enfermidades estão o desmatamento, a fragmentação de habitats, a expansão urbana desordenada, as mudanças climáticas e a intensificação do contato entre seres humanos, animais domésticos e fauna silvestre.
Tal cenário favorece eventos conhecidos como spillover, o processo em que um agente infeccioso ultrapassa a barreira entre espécies e passa a infectar seres humanos. Quando esse agente encontra condições favoráveis para transmissão entre pessoas, pode dar origem a surtos, epidemias e, eventualmente, pandemias.
No Brasil, esse contexto exige vigilância permanente. O país reúne uma das maiores biodiversidades do mundo e convive, simultaneamente, com zoonoses urbanas e silvestres, tornando interessante a adoção do conceito One Health, que integra de forma indissociável a saúde humana, animal e ambiental.
Zoonoses que permanecem no radar da vigilância brasileira
Para Marcos Vinicius da Silva, médico infectologista, membro do Comitê de Medicina Tropical da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e doutor em Medicina Tropical, a identificação precoce e o monitoramento contínuo são vitais. Conheça algumas das principais doenças que estão no radar da saúde pública no Brasil:
- Leishmaniose Visceral: o Brasil concentra cerca de 95% dos casos registrados nas Américas. Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o país registra cerca de 3 mil novos casos por ano. A doença segue como prioridade de saúde pública pelo alto risco de morte quando não tratada precocemente.
- Febre Amarela: desde 2016, a circulação do vírus avançou para regiões antes consideradas de baixo risco no Sudeste e Sul, exigindo a ampliação das áreas com recomendação de vacina. O monitoramento de epizootias (mortes de macacos) é a principal ferramenta para antecipar a circulação do vírus antes que ele chegue aos humanos.
- Raiva Humana: a transmissão urbana por cães está controlada na maior parte do país, graças à vacinação do SUS. No entanto, o ciclo silvestre da doença, envolvendo principalmente morcegos hematófagos e saguis, mantém o Ministério da Saúde em constante alerta.
Vigilância integrada é a principal estratégia de prevenção
Para a SBI, fortalecer de forma integrada a vigilância epidemiológica, ambiental, laboratorial e genômica é uma das estratégias mais importantes para prevenir futuras emergências sanitárias. A identificação precoce de novos patógenos, variantes e eventos de transmissão entre espécies permite conter surtos ainda em sua fase inicial, reduzindo fortemente o risco de disseminação regional e internacional.
Nesse contexto, a abordagem One Health torna-se ainda mais essencial para orientar políticas públicas capazes de reduzir o impacto das zoonoses e aumentar a capacidade de resposta do país e do mundo diante de novas ameaças infecciosas.
A SBI reforça seu compromisso em promover o debate técnico-científico e apoiar ações de vigilância, prevenção e educação em saúde que reconheçam a interdependência vital entre pessoas, animais e o meio ambiente.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Febre amarela. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Leishmaniose visceral. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Raiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Zoonoses. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
JONES, K. E. et al. Global trends in emerging infectious diseases. Nature, London, v. 451, n. 7181, p. 990–993, 2008.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO); FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO); WORLD ORGANISATION FOR ANIMAL HEALTH (WOAH); UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). One Health Joint Plan of Action (2022–2026). Geneva: WHO, 2022.
