Por: Dr. Eudes Alves Simões Neto
A especialidade que mais cedo compreendeu que uma internação pode gerar consequências danosas ao paciente foi a Infectologia. Antes mesmo que a expressão “segurança do paciente” fosse sequer pronunciada nos hospitais. Ela esteve lá desde o princípio. Foi, na verdade, quem abriu a porta. E fez isso utilizando o método científico.
Voltemos a meados do século 19. O médico húngaro, de origem judaica, Ignaz Semmelweis observava, angustiado, uma taxa de mortalidade por febre puerperal que chegava a 18% na enfermaria conduzida por médicos e estudantes — contra menos de 4% na enfermaria conduzida por parteiras. Essa diferença era atribuída à maior frequência de partos induzidos. No entanto, ele fez a seguinte observação: os médicos e estudantes iam diretamente da sala de autópsia para o parto, carregando consigo o que era chamado de “partículas cadavéricas”. Foi então que ele resolveu testar a seguinte hipótese: será que se lavarmos as mãos antes de tocar as parturientes, poderíamos prevenir a febre puerperal?
Ele então estabeleceu uma regra: passou a deixar como obrigatória a toda a equipe a lavagem das mãos com solução clorada. Os resultados foram imediatos e dramáticos: a mortalidade despencou de 18% para 1.2%. O problema é que a resposta da comunidade médica foi o escárnio. O método científico não era conhecido e a sua evidência foi desacreditada. Semmelweis acabou morrendo em um hospício, sem o reconhecimento que merecia na época. Décadas depois, Pasteur e Lister provariam que ele estava certo. Mas o preço desse atraso foi pago em vidas de mães.
Menos de uma década depois, Florence Nightingale, uma enfermeira inglesa nascida em Florença, chegava aos hospitais militares da Guerra da Crimeia e encontrava o caos. Soldados não morriam apenas de ferimentos, mas principalmente de doenças infecciosas, oriundas de um ambiente que transformava o ato de curar em ato de adoecer. Com rigor científico, ela coletou dados, construiu gráficos e demonstrou que a reorganização do ambiente hospitalar — ventilação, limpeza, isolamento — reduzia drasticamente a mortalidade.
Com os seus argumentos baseados em dados objetivos, ela transformou a rotina e até a estrutura dos hospitais, com objetivo de causar menos danos aos pacientes. Em seu livro Notes on nursing: What is, and what is not (1860) ela escreveu: “Toda enfermeira deve ter o cuidado de lavar as mãos com muita frequência durante o dia.”
O que une Semmelweis e Nightingale não é apenas a genialidade ou a coragem. É o método: observar, medir, intervir e proteger. Eles foram os primeiros controladores de infecção, os agentes da segurança do paciente antes mesmo que esses conceitos fossem formulados. E é exatamente o método científico que define a Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (CCIRAS), mais conhecido como Controle de Infecção Hospitalar (CCIH).
Essa área, criada mais de um século depois, se tornaria o núcleo operacional da Infectologia dentro dos hospitais e o primeiro serviço sistemático de segurança do paciente que a medicina conheceu — muito antes de check-lists cirúrgicos, de protocolos de identificação de pacientes ou de sistemas de notificação de eventos adversos.
Quando o mundo da qualidade em saúde amadureceu e a segurança do paciente ganhou protagonismo — especialmente após o relatório “To Err is Human”, publicado pelo Institute of Medicine dos Estados Unidos em 1999, que estimou até 98 mil mortes anuais por erros médicos evitáveis — as ferramentas utilizadas foram, em grande parte, aquelas que o controle de infecção já praticava há décadas: vigilância epidemiológica, análise de indicadores, bundles de prevenção, cultura de notificação, educação continuada.
A Infectologia havia construído o alicerce. Outros vieram depois para erguer o edifício. Hoje, as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) continuam sendo um dos maiores desafios da medicina moderna. Segundo dados da OMS, 15% de todos os pacientes internados em países de baixa e média renda, como o Brasil, irão desenvolver pelo menos uma IRAS. Desses, entre 24 e 52% podem morrem por isso. São pneumonias associadas à ventilação mecânica, infecções de corrente sanguínea por cateter, infecções relacionadas à cirurgia.
Cada infecção dessa pode ser evitada, pois para cada uma delas existe um protocolo de prevenção bem estabelecido e eficaz. Na linguagem da segurança do paciente, é um dano evitável, uma falha do sistema, não do destino. Há algo ainda mais urgente nessa conversa. O avanço da resistência antimicrobiana (RAM), alimentado pelo uso indiscriminado de antibióticos, pela pressão seletiva nos ambientes hospitalares e pela negligência global.
A RAM representa uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. A Organização Mundial da Saúde já a classifica como uma crise silenciosa que, em menos de 30 anos, pode levar a óbito mais pessoas que o câncer. Bactérias que resistem a todos os antibióticos disponíveis não são mais ficção científica: circulam em UTIs, enfermarias e até na comunidade. Silenciosamente, são carregadas nas mãos que deveriam curar.
Falar de Infectologia e Segurança do Paciente, portanto, não é falar de duas áreas da saúde em diálogo. É reconhecer que uma nasceu da outra, possuindo portanto a mesma origem. Essa origem exige do médico mais do que conhecimento técnico: exige a habilidade de conhecer o método científico, além da disposição de questionar práticas estabelecidas, de transformar dados em ação e de colocar a proteção do paciente acima do conforto institucional.
O controle de infecção nasceu de uma observação simples: o cuidado começa antes do remédio. Neste mês de maio, quando comemoramos o Dia Mundial da Higiene das Mãos e o dia Nacional do Controle de Infecção, vale lembrar que cada mão higienizada, cada protocolo seguido, cada infecção evitada é a continuação silenciosa de um trabalho que Semmelweis e Nightingale começaram há quase dois séculos. Hoje temos protocolos, evidências e tecnologia que eles jamais imaginaram. Celebremos, portanto, não apenas o que já foi feito, mas tudo o que ainda será possível quando ciência e cuidado se tornarem inseparáveis.
Dr Eudes Alves Simões Neto é médico Infectologista, doutor em Ciências da Saúde pela UFMA e professor de medicina UFMA. É membro do Comitê de IRAS, Qualidade e Segurança da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
