No Dia de Conscientização sobre a Necessidade de Vacina Contra o HIV/Aids, SBI reforça que imunizante segue como esperança para o controle definitivo da epidemia
Mais de quatro décadas após os primeiros casos de HIV/Aids serem identificados no mundo, a busca por uma vacina preventiva contra o vírus continua sendo um dos maiores desafios da ciência. Mesmo com os avanços históricos no tratamento e nas estratégias de prevenção, especialistas alertam que o controle definitivo da epidemia ainda depende do desenvolvimento de um imunizante seguro e eficaz.
No Dia de Conscientização sobre a Necessidade de Vacina Contra o HIV/Aids, celebrado em 18 de maio, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) destaca que os avanços recentes da biotecnologia têm renovado as perspectivas para a criação de uma vacina capaz de reduzir a transmissão do vírus em escala global.
O avanço da Terapia Antirretroviral (TARV), aliado à ampliação da Prevenção Combinada, que inclui o uso de preservativos, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), transformou profundamente o cenário do HIV. Hoje, pessoas vivendo com HIV que realizam tratamento adequado podem ter qualidade de vida e não transmitem o vírus sexualmente, conceito conhecido como “I = I” (Indetectável = Intransmissível).
Ainda assim, os números seguem preocupantes. Estima-se que cerca de 40 milhões de pessoas vivam com HIV no mundo, enquanto mais de 1 milhão de novas infecções continuam sendo registradas anualmente. No Brasil, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) seja referência internacional no acesso universal ao tratamento, os boletins epidemiológicos mostram a persistência de novos casos, especialmente entre populações em situação de maior vulnerabilidade.
“A PrEP representa um dos maiores avanços da prevenção do HIV nas últimas décadas, mas nenhuma estratégia isolada será suficiente para controlar definitivamente a epidemia. A vacina continua sendo o caminho com maior potencial de impacto coletivo e global”, afirma Ricardo Sobhie Diaz, médico infectologista e presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Por que desenvolver uma vacina contra o HIV é tão difícil?
Diferentemente de outros vírus, como Influenza ou SARS-CoV-2, o HIV apresenta características biológicas que dificultam enormemente o desenvolvimento de uma vacina eficaz.
O vírus sofre mutações de forma extremamente rápida, gerando inúmeras variantes em um curto período de tempo. Além disso, ele infecta justamente as células responsáveis pela coordenação da resposta imunológica, os linfócitos T CD4+, comprometendo o próprio sistema de defesa que a vacina tentaria estimular.
Outro desafio é a formação precoce dos chamados reservatórios virais: células infectadas onde o HIV permanece “escondido” e praticamente invisível ao sistema imunológico.
“O HIV continua sendo um dos maiores desafios científicos da história da medicina porque consegue atacar justamente as células responsáveis pela defesa do organismo. Isso torna o desenvolvimento de uma vacina muito mais complexo do que em outras infecções virais”, explica Diaz.
Nova geração de pesquisas reacende esperança
Apesar das dificuldades, os avanços tecnológicos dos últimos anos abriram novas possibilidades para a pesquisa de vacinas contra o HIV.
Uma das estratégias mais promissoras é conhecida como Germline Targeting, abordagem que busca “treinar” o sistema imunológico gradualmente para produzir os chamados anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs), capazes de reconhecer regiões do vírus que sofrem poucas mutações.
Além disso, plataformas de RNA mensageiro (mRNA), popularizadas durante a pandemia de COVID-19, também vêm sendo estudadas como ferramenta para acelerar o desenvolvimento de imunizantes contra o HIV.
Atualmente, dezenas de ensaios clínicos estão em andamento em diferentes países, avaliando tanto vacinas preventivas quanto vacinas terapêuticas, voltadas para pessoas que já vivem com o vírus.
No Brasil, uma das pesquisas de destaque é conduzida na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz. O estudo investiga estratégias combinadas para reduzir os reservatórios virais e estimular o sistema imunológico a reconhecer células infectadas pelo HIV.
Em 2025, um dos participantes do estudo ganhou repercussão internacional após permanecer por longo período sem sinais detectáveis do vírus após tratamento experimental. Especialistas reforçam, porém, que o caso ainda segue em acompanhamento e que não há comprovação de cura definitiva.
Vacinação também é prioridade para quem vive com HIV
Enquanto a vacina preventiva contra o HIV segue em desenvolvimento, a Sociedade Brasileira de Infectologia reforça outra medida considerada essencial: manter atualizada a vacinação das pessoas que vivem com HIV/Aids.
Devido às alterações imunológicas causadas pelo vírus, essa população apresenta maior risco de complicações por infecções oportunistas e doenças imunopreveníveis.
“Enquanto buscamos uma vacina preventiva contra o HIV, precisamos reforçar outra mensagem fundamental: pessoas vivendo com o vírus devem manter seu calendário vacinal atualizado. A imunização reduz complicações graves, hospitalizações e mortalidade”, destaca o presidente da SBI.
A SBI ressalta ainda que nenhuma tecnologia substitui as estratégias de prevenção já consolidadas, como testagem regular, diagnóstico precoce, ampliação do acesso à PrEP e à PEP, adesão ao tratamento e combate ao estigma, ainda considerado uma das principais barreiras para o acesso aos serviços de saúde.
Até que uma vacina eficaz esteja disponível, informação baseada em evidências, acesso à prevenção e fortalecimento das políticas públicas continuam sendo as principais ferramentas para reduzir a transmissão do HIV e salvar vidas.
