A Leishmaniose é uma doença infecciosa que representa um desafio histórico e complexo para a saúde pública brasileira. Transmitida pela picada da fêmea infectada de insetos conhecidos popularmente como mosquito-palha (flebótomos), a doença não é transmitida de pessoa para pessoa, dependendo diretamente desse vetor.
A enfermidade se manifesta de duas formas principais: a Leishmaniose Tegumentar (LTA), que provoca úlceras na pele e nas mucosas; e a Leishmaniose Visceral (LV), a forma mais severa, que afeta órgãos como fígado, baço e medula óssea, podendo ser fatal se não for tratada rapidamente.
O cenário atual e a chegada aos centros urbanos
Historicamente, a leishmaniose era uma doença restrita a áreas silvestres e rurais. No entanto, o cenário epidemiológico mudou drasticamente, dados do relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) revelam que a doença é típica das Américas, e o Brasil concentra a grande maioria dos casos notificados no continente, especialmente na forma visceral.
De acordo com análises do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), o desmatamento, as mudanças climáticas e o crescimento desordenado das cidades provocaram a urbanização da doença. O mosquito-palha demonstrou uma alta capacidade de adaptação aos ambientes urbanos e periurbanos (transição entre área rural e urbana), aproximando o ciclo de transmissão das residências.
Como funciona a prevenção?
Diferente do Aedes aegypti (transmissor da dengue), que se reproduz em água parada, o mosquito-palha se prolifera em locais sombreados e ricos em matéria orgânica em decomposição. Portanto, as medidas de prevenção e controle ambiental do Ministério da Saúde focam diretamente na limpeza dos ambientes.
As principais frentes de prevenção incluem:
- Limpeza de quintais e terrenos: recolhimento diário de folhas secas, frutos apodrecidos, fezes de animais e restos de madeira.
- Descarte correto do lixo: ensacar e descartar o lixo orgânico adequadamente, evitando o acúmulo próximo às casas.
- Proteção individual e residencial: uso de repelentes, instalação de telas de malha fina nas portas e janelas, e uso de mosquiteiros.
- Cuidado com os animais: higiene dos abrigos de cães e animais de criação (como galinheiros, que atraem o vetor).
Os desafios para o controle e a “Saúde Única”
O controle da leishmaniose colide com obstáculos científicos e operacionais profundos. A Fiocruz destaca que o tratamento em humanos é longo e, muitas vezes, envolve medicamentos com alta toxicidade, o que exige acompanhamento médico rigoroso. Além disso, ainda não existe uma vacina para humanos capaz de prevenir a infecção.
Outro grande desafio é o manejo da doença nos animais. Na Leishmaniose Visceral urbana, o cão doméstico atua como o principal reservatório do parasita. Como os cães podem estar infectados sem apresentar sintomas por muito tempo, eles acabam servindo de fonte de infecção para o mosquito, que, por sua vez, pica os humanos.
Esse cenário exige que o enfrentamento da doença siga o conceito de Saúde Única, que reconhece que a saúde humana está diretamente ligada à saúde dos animais e aos ecossistemas. Além de a eliminação dos focos do vetor exigir ações do poder público, ela também exige que cada cidadão compreenda o ciclo da doença e atue, ativamente, na manutenção de ambientes limpos e seguros.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. 1. ed., 5. reimp. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Cap. 4 (Leishmaniose Tegumentar e Leishmaniose Visceral).
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Leishmanioses: relatório epidemiológico nas Américas. n. 11. Washington, D.C.: OPAS, 2022.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Instituto Oswaldo Cruz. Especial Leishmaniose: ciência, prevenção e desafios no controle da doença. Rio de Janeiro: Fiocruz.
