Com a chegada das estações mais frias do ano, aumenta a circulação de vírus respiratórios e, consequentemente, a procura por consultórios e serviços de emergência devido a sintomas como febre, dor de garganta, tosse, coriza e mal-estar.
Nesse período, uma prática preocupa especialistas: o uso de antibióticos para tratar gripe e resfriados. A busca por uma recuperação mais rápida ou a tentativa de aliviar sintomas intensos pode levar algumas pessoas à automedicação ou à solicitação de medicamentos que não são indicados para aquele quadro.
A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) reforça que compreender a diferença entre vírus e bactérias é fundamental para garantir um tratamento adequado e evitar consequências individuais e coletivas, como o aumento da resistência bacteriana.
Gripe é causada por vírus
A gripe, causada principalmente pelo vírus Influenza, assim como a maioria dos resfriados, são infecções virais. Os antibióticos são medicamentos desenvolvidos para combater bactérias, atuando em estruturas e mecanismos específicos desses microrganismos.
Por isso, antibióticos não têm eficácia contra vírus respiratórios e não aceleram a recuperação em quadros virais. O uso inadequado desses medicamentos pode, inclusive, trazer riscos desnecessários ao paciente.
“Antibióticos são ferramentas essenciais da medicina e salvaram milhões de vidas, mas precisam ser utilizados no momento adequado e para infecções em que realmente sejam necessários. Quando usados contra vírus, não ajudam no tratamento e ainda contribuem para o aumento da resistência bacteriana”, explica Dr. Alexandre Cunha, membro do comitê de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) da SBI.
Durante o inverno, a maior circulação de vírus respiratórios ocorre, entre outros fatores, pela permanência prolongada das pessoas em ambientes fechados. Esse cenário favorece o aumento de casos de síndromes gripais e pode levar à busca por soluções rápidas.
Entre os comportamentos de risco estão:
- utilizar antibióticos sem avaliação médica;
- reaproveitar medicamentos que sobraram de tratamentos anteriores;
- usar antibióticos prescritos para outra pessoa;
- interromper ou modificar tratamentos por conta própria.
Uso inadequado de antibióticos favorece o surgimento de superbactérias
Quando um antibiótico é usado sem necessidade, ele não elimina vírus como o da gripe, mas pode afetar bactérias da microbiota humana, conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no organismo e desempenham funções importantes.
Esse processo contribui para a chamada pressão seletiva: bactérias sensíveis ao medicamento são eliminadas, enquanto aquelas que apresentam mecanismos de resistência podem sobreviver e se multiplicar.
Com o tempo, esse fenômeno favorece o surgimento das chamadas superbactérias, bactérias resistentes a determinados antibióticos, tornando algumas infecções mais difíceis de tratar.
A resistência bacteriana é considerada uma das principais ameaças à saúde pública mundial, pois pode comprometer procedimentos médicos que dependem de antibióticos eficazes, como:
- cirurgias complexas;
- transplantes de órgãos e tecidos;
- tratamentos contra o câncer, incluindo quimioterapia e radioterapia.
Além do impacto coletivo, o uso inadequado também pode trazer riscos individuais. Como qualquer medicamento, antibióticos podem causar efeitos adversos, como reações alérgicas, alterações gastrointestinais e, em alguns casos, impactos no funcionamento de órgãos como fígado e rins.
O uso consciente dos antimicrobianos
Para conter o avanço global da resistência microbiana, a Anvisa e o Ministério da Saúde incentivam os programas de gerenciamento de antimicrobianos nos serviços de saúde, garantindo que o medicamento correto seja utilizado apenas com critérios clínicos claros.
Preservar a eficácia dos antibióticos é uma responsabilidade coletiva, pois o uso inadequado desses fármacos para tratar viroses impõe o risco iminente de tornar intratáveis diversas infecções comunitárias que hoje são consideradas simples.
Quando antibióticos podem ser indicados?
Nem toda infecção respiratória exige o mesmo tratamento. Antibióticos devem ser utilizados apenas quando há confirmação ou suspeita clínica de uma infecção bacteriana, sempre com avaliação de um profissional de saúde.
O manejo adequado das infecções respiratórias envolve:
- identificar se o quadro é viral ou bacteriano;
- utilizar medicamentos indicados para cada situação;
- controlar sintomas e acompanhar sinais de evolução da doença.
A SBI reforça que preservar a eficácia dos antibióticos depende do uso responsável desses medicamentos. A automedicação aumenta o risco de resistência e pode comprometer o tratamento de infecções futuras.
Como tratar gripe e resfriados?
Na maioria dos casos, as infecções virais respiratórias apresentam melhora com medidas de suporte, como:
- repouso;
- hidratação adequada;
- alimentação equilibrada;
- medicamentos indicados para alívio de sintomas, quando necessários.
Em alguns quadros de Influenza e Covid-19, por exemplo, é necessário o uso de um antiviral específico. Entretanto, a vacinação contra essas doenças, conforme as recomendações vigentes do Ministério da Saúde, continua sendo a principal estratégia para reduzir evoluções graves, hospitalizações e complicações.
Quando procurar atendimento médico?
Embora muitas viroses respiratórias evoluam bem com cuidados básicos, alguns sinais indicam a necessidade de avaliação médica imediata:
- dificuldade para respirar ou falta de ar persistente;
- dor ou pressão contínua no peito;
- febre alta persistente;
- coloração azulada nos lábios ou dedos (cianose);
- fraqueza intensa, sonolência excessiva ou confusão mental.
A Sociedade Brasileira de Infectologia reforça: os antibióticos são aliados fundamentais da saúde, mas devem ser usados com responsabilidade. O tratamento correto começa com o diagnóstico adequado.
Referências
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. The WHO AWaRe antibiotic book. Genebra: OMS, 2022.
GOMES, M. J. M. et al. Prescrição de antimicrobianos em infecções respiratórias agudas: análise crítica e impacto na resistência bacteriana. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 38, n. 4, p. 1-12, 2022.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Diretriz nacional para o gerenciamento de antimicrobianos em serviços de saúde. Brasília: Anvisa, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Contribuições para a promoção do uso racional de medicamentos. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
