Entenda como a prevenção por vacinas e o gerenciamento rigoroso de antimicrobianos nos serviços de saúde evitam o surgimento de superbactérias
Com a chegada das estações mais frias do ano, o cenário epidemiológico brasileiro passa por uma mudança que exige atenção constante de profissionais de saúde e da população: o aumento expressivo das síndromes respiratórias. A queda das temperaturas e a maior permanência de pessoas em ambientes fechados criam as condições ideais para a circulação de diversos patógenos (organismos capazes de produzir doenças).
Para orientar a população sobre como enfrentar esse período de forma segura, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) reforça a importância de algumas atitudes fundamentais:
- Prevenção ativa através da vacinação;
- Identificação correta dos sinais de alerta;
- O uso racional de antimicrobianos.
Sazonalidade e a circulação viral no inverno
O aumento de casos de doenças no inverno ocorre porque o período frio altera o comportamento humano e a sobrevivência dos microrganismos no ambiente. Durante o inverno, o vírus Influenza, o Vírus Sincicial Respiratório (principal responsável por bronquiolites em bebês) e o SARS-CoV-2 (Covid-19) encontram facilidade para se disseminar.
De acordo com dados de monitoramento de saúde pública, esse período concentra os maiores picos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Na maioria das vezes, esses quadros iniciais apresentam sintomas semelhantes: tosse, dor de garganta, coriza, congestão nasal e febre.
A confusão entre infecções virais e bacterianas
O grande desafio apontado pelos especialistas é a diferenciação entre infecções virais e bacterianas, o que frequentemente leva à automedicação.
O Klinger Faíco, médico infectologista e membro da SBI, alerta que a expectativa de uma “cura rápida” tem alimentado um problema de saúde pública global. “É muito comum que pacientes procurem atendimento acreditando que um antibiótico irá acelerar a melhora de sintomas como tosse ou dor de garganta. No entanto, a maioria das infecções respiratórias observadas durante o inverno é causada por vírus, e os antibióticos não têm qualquer ação contra eles. Utilizar esses medicamentos sem necessidade não traz benefícios ao paciente e ainda aumenta um problema que afeta toda a sociedade: a resistência bacteriana”, explica o Klinger.
Quando um antibiótico é utilizado de forma inadequada (seja para tratar um vírus, em doses incorretas ou por tempo insuficiente), ele elimina apenas as bactérias sensíveis do organismo, permitindo que as mais fortes e mutantes sobrevivam e se multipliquem. O resultado é o surgimento das chamadas superbactérias.
O impacto desse fenômeno vai muito além de uma gripe mal tratada. A resistência bacteriana ameaça a eficácia de tratamentos essenciais da medicina moderna, como cirurgias complexas, transplantes de órgãos e terapias oncológicas, que dependem de antibióticos funcionais para garantir a segurança dos pacientes.
O papel do gerenciamento de antimicrobianos
Para frear o avanço da resistência microbiana, classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das maiores ameaças à saúde global, os serviços de saúde desempenham um papel técnico crucial por meio dos programas de Stewardship (gerenciamento de antimicrobianos).
Esses programas, amplamente incentivados pela Anvisa, consistem em um conjunto de ações institucionais para garantir que o paciente receba o antibiótico certo, na dose exata, pelo tempo estritamente necessário.
“Os antibióticos transformaram a história da medicina e salvaram milhões de vidas nas últimas décadas. Preservar sua eficácia é uma responsabilidade coletiva. Se continuarmos utilizando esses medicamentos de forma inadequada, corremos o risco de enfrentar um futuro em que infecções hoje consideradas simples se tornem novamente graves e difíceis de tratar”, destaca Faíco.
Como se prevenir e identificar sinais de alerta
A melhor estratégia contra as síndromes respiratórias de inverno permanece sendo a prevenção. A SBI reforça que manter a carteira de vacinação atualizada contra a Influenza e a Covid-19 é a ferramenta mais eficaz para reduzir internações e complicações graves.
Para além da imunização, cuidados básicos ajudam a bloquear a transmissão dos vírus:
- Higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel;
- Manutenção de ambientes ventilados, mesmo nos dias frios;
- Prática da etiqueta respiratória (cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar).
Em casos leves, o repouso, a hidratação abundante e o uso de analgésicos comuns (sob orientação) costumam ser suficientes para a recuperação do organismo contra os vírus. No entanto, o atendimento médico imediato deve ser buscado caso surjam os seguintes sinais de alerta:
- Falta de ar ou dificuldade para respirar;
- Pressão ou dor persistente no peito;
- Febre alta que não cede com antitérmicos comuns;
- Lábios ou dedos arroxeados (cianose);
- Prostração extrema ou confusão mental (especialmente em idosos e crianças).
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Antibióticos: uso indiscriminado deve ser controlado. Brasília, DF: Anvisa, 2018.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Confira dados mundiais sobre resistência microbiana. Brasília, DF: Anvisa, 2021.
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Gerenciamento do uso de antimicrobianos em serviços de saúde. Brasília, DF: Anvisa, [202-?].
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). OMS adverte sobre resistência generalizada em todo o mundo a antibióticos de uso comum. Brasília, DF: OPAS/OMS, 13 out. 2025.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). InfoGripe: A alta de casos de SRAG reflete o período de maior circulação do VSR e Influenza. Rio de Janeiro: Agência Fiocruz de Notícias, 23 abr. 2024.
