Escrito por: Leonardo Weissmann Poucas descobertas modificaram tão profundamente a história da Medicina quanto a penicilina. Antes dos antibióticos, infecções hoje consideradas tratáveis podiam representar uma sentença de morte. Pneumonias, infecções de feridas e septicemias cobravam inúmeras vidas, enquanto procedimentos cirúrgicos eram acompanhados pelo permanente risco de complicações infecciosas. Foi nesse cenário que uma observação de Alexander Fleming abriu caminho para uma nova era da Medicina. Nascido na Escócia, em 1881, Fleming formou-se em Medicina e desenvolveu grande parte de sua carreira no St. Mary’s Hospital, em Londres. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no Royal Army Medical Corps e teve contato direto com soldados que morriam em decorrência de feridas infectadas. A experiência despertou seu interesse pela busca de substâncias capazes de combater bactérias sem causar danos importantes aos tecidos humanos. Em 1928, ao estudar culturas de Staphylococcus em seu laboratório, Fleming observou algo inesperado. Uma das placas havia sido contaminada por um fungo do gênero Penicillium. Ao redor do bolor, entretanto, as colônias bacterianas não cresciam. Em vez de simplesmente descartar a cultura contaminada, Fleming percebeu a importância do fenômeno e passou a investigá-lo. Concluiu que o fungo produzia uma substância capaz de inibir determinadas bactérias, à qual deu o nome de penicilina. O acaso participou da descoberta, mas não a explica. Muitos poderiam ter observado uma placa contaminada; Fleming reconheceu naquele acontecimento uma pergunta científica. Sua contribuição demonstra o valor da curiosidade, da capacidade de observação e, sobretudo, de perceber significado onde outros talvez enxergassem apenas um experimento perdido. Fleming publicou seus resultados em 1929, mas transformar aquela observação em medicamento ainda parecia distante. A penicilina era instável e difícil de purificar. Mais de uma década depois, os trabalhos de Howard Florey, Ernst Boris Chain e sua equipe permitiram seu isolamento, desenvolvimento terapêutico e posterior produção em larga escala. Durante a Segunda Guerra Mundial, a penicilina passou a salvar milhares de vidas, particularmente entre soldados com feridas infectadas. Em 1945, Fleming, Florey e Chain dividiram o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da penicilina e seu efeito curativo nas doenças infecciosas. A importância dos antibióticos, porém, ultrapassou o tratamento das infecções bacterianas. Eles contribuíram para tornar mais seguros procedimentos cirúrgicos complexos e, posteriormente, possibilitaram avanços como transplantes de órgãos, quimioterapia e outras intervenções que dependem da capacidade de prevenir e tratar infecções. A Medicina moderna, como a conhecemos, seria difícil de imaginar sem eles. Curiosamente, Fleming também anteviu um dos maiores desafios atuais da Infectologia. Em sua conferência do Nobel, em 1945, advertiu que o uso inadequado da penicilina, especialmente em doses insuficientes, poderia selecionar bactérias resistentes. O alerta mostrou-se uma profecia. Décadas de uso excessivo e inadequado dos antimicrobianos contribuíram para transformar a resistência bacteriana em uma das principais ameaças à saúde pública mundial. Quase um século depois daquela placa de cultura no laboratório do St. Mary’s Hospital, o legado de Fleming permanece atual. Se sua descoberta ensinou à humanidade que era possível vencer infecções antes fatais, sua advertência nos lembra que essa conquista não está garantida para sempre. Preservar a eficácia dos antimicrobianos, por meio de seu uso responsável, da prevenção de infecções, da vigilância da resistência e do desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, talvez seja hoje a melhor maneira de honrar uma das descobertas mais importantes da história da Medicina. Leonardo Weissmann é mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela USP. Associado da SBI desde 2003, membro do Comitê de Hepatites Virais e presidente da Comissão de Título de Especialista em Infectologia.
Artigos da Semana
-
-
AtualizaçãoArtigos da SemanaNotíciasNotícias da Infectologia
30 anos de tratamento antirretroviral gratuito no Brasil: uma história de vidas salvas, dignidade e compromisso com a ciência
Há 30 anos, o Brasil tomou uma decisão que mudaria para sempre a história da saúde pública mundial. Ao garantir, por lei, o acesso universal e gratuito ao tratamento antirretroviral para pessoas com HIV, o país escolheu colocar a vida acima de qualquer outra prioridade. Foi um ato de coragem, de humanidade e de compromisso com a ciência. Quando o HIV e a aids surgiram no Brasil e no mundo, nós, infectologistas, éramos espectadores da catástrofe. Víamos as pessoas irem e deixarem entes queridos e amigos; nada podíamos fazer além de oferecer nossa legítima empatia. Naquele momento, quando o HIV ainda carregava o peso do medo, do preconceito e de um prognóstico muitas vezes devastador, oferecer tratamento gratuito parecia, para muitos, um desafio impossível. Para o Brasil, porém, tornou-se um compromisso inegociável. Países desenvolvidos ainda acusaram nossa iniciativa de representar um risco para o mundo por propiciar oportunidades para a seleção de vírus resistentes. Afinal, somos um país não desenvolvido, com mazelas relacionadas à pobreza que comprometem a adesão ao tratamento. Erro fundamental desses avaliadores internacionais! Prestemos atenção! Ao longo dessas três décadas, milhões de pessoas tiveram a oportunidade de transformar um diagnóstico que antes significava uma sentença de morte em uma condição crônica, passível de controle, permitindo que sonhos fossem retomados, famílias fossem construídas, filhos crescessem ao lado de seus pais e mães e projetos de vida continuassem a existir. Cada comprimido distribuído representa muito mais do que um medicamento. Representa tempo. Representa aniversários celebrados, formaturas, casamentos, netos que nasceram, carreiras construídas e histórias que puderam continuar sendo escritas. Essa conquista só foi possível graças ao trabalho conjunto do Sistema Único de Saúde, da comunidade científica, dos profissionais de saúde, dos movimentos sociais, das pessoas vivendo com HIV e de gestores públicos que compreenderam que enfrentar uma epidemia exige conhecimento, solidariedade e políticas públicas baseadas em evidências. A evolução dos tratamentos acompanhou a da própria ciência. Os tratamentos antirretrovirais tornaram-se mais eficazes, mais seguros e mais simples, proporcionando melhor qualidade de vida e permitindo que pessoas vivendo com HIV tenham hoje uma expectativa de vida … Vamos falar um pouquinho sobre a expectativa de vida. Quando éramos espectadores da catástrofe, a expectativa de vida das pessoas com aids era muito baixa. Essa expectativa foi aumentando com a instituição e a melhora dos tratamentos antirretrovirais. Hoje, a expectativa de vida das pessoas diagnosticadas precocemente com HIV e que recebem tratamento, culminando em carga viral indetectável, é superior à das pessoas sem HIV! Assim, o HIV protegeria as pessoas! Porque as pessoas com HIV recebem os medicamentos, são monitoradas, vão aos médicos, diagnosticam as comorbidades, e recebem a proteção propiciada por nós, médico(a)s infectologistas. Além disso, o conhecimento científico consolidou um dos maiores avanços no enfrentamento da epidemia … (Existe alguma verdade absoluta na medicina?) Sim existe! E está na nossa área. Na infectologia. Pessoas em tratamento, com carga viral indetectável, não transmitem o HIV por via sexual: o princípio conhecido mundialmente como Indetectável = Intransmissível (I=I). Celebrar esses 30 anos, entretanto, não significa considerar a missão concluída. Ainda existem desafios importantes: ampliar o diagnóstico precoce, reduzir as desigualdades no acesso aos serviços de saúde, combater o estigma e a discriminação, fortalecer a prevenção combinada e garantir que todas as pessoas tenham acesso contínuo às tecnologias de tratamento mais modernas. A história dos antirretrovirais no Brasil é, acima de tudo, a história da confiança na ciência. É a prova de que políticas públicas consistentes salvam vidas e reduzem desigualdades. É um legado que ultrapassa fronteiras e permanece como referência internacional de que a saúde é um direito, não um privilégio. Neste …
