Escrito por: Dr. Marcellus Costa
A raiva acompanha a humanidade há milênios. Uma vez instalada a encefalite clínica, a evolução é quase invariavelmente fatal; paradoxalmente, a infecção pode ser evitada mesmo depois da exposição. Durante séculos, o manejo das mordeduras atribuídas a animais raivosos limitou-se essencialmente a medidas locais, entre elas a cauterização, prática descrita desde a Antiguidade e ainda recomendada até o final do século XIX (TARANTOLA, 2017). A mudança decisiva ocorreu em 1885, quando Louis Pasteur e seus colaboradores trataram Joseph Meister, de nove anos, após múltiplas mordeduras por um cão raivoso, com uma série de inoculações de preparações obtidas de medula espinal de coelhos infectados. Meister sobreviveu, e a possibilidade de prevenir uma doença fatal por meio da vacinação após a exposição tornou-se um dos grandes marcos da medicina do final do século XIX (TARANTOLA, 2017; GOMES, 2021).
A nova profilaxia difundiu-se rapidamente e chegou muito cedo ao Brasil. Em 1886, menos de um ano após o tratamento de Meister, o governo imperial, em acordo com a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, encarregou o médico Augusto Ferreira dos Santos, professor da Faculdade de Medicina, de estudar na França o método desenvolvido por Pasteur e viabilizar sua introdução no país (TEIXEIRA; SANDOVAL; TAKAOKA, 2004). Um episódio ilustra as dificuldades dessa transferência de tecnologia: na viagem de retorno, Ferreira dos Santos trouxe coelhos inoculados em Paris e, quando estes adoeceram durante a travessia, realizou a passagem do vírus para outros coelhos ainda a bordo do navio, preservando o material necessário para implantar a vacinação no Rio de Janeiro (GOMES, 2021). Em 9 de fevereiro de 1888, a menina Isolina Torres recebeu, na Santa Casa, o primeiro tratamento antirrábico realizado no Brasil; poucos dias depois, em 25 de fevereiro, foi inaugurado o Instituto Pasteur do Rio de Janeiro, sob a direção de Ferreira dos Santos (GOMES, 2021).
Em São Paulo, o Instituto Pasteur foi criado em 1903 e tornou-se importante centro de assistência, diagnóstico, pesquisa e controle da raiva (TEIXEIRA; SANDOVAL; TAKAOKA, 2004). Sua história também se entrelaça com a compreensão da epidemiologia da doença: em 1908, seu diretor Antonio Carini levantou a hipótese de que morcegos hematófagos estariam envolvidos na transmissão da raiva de bovinos e equinos, ideia inicialmente recebida com ceticismo e posteriormente confirmada (SÃO PAULO, 2026). Atualmente, o Instituto Pasteur de São Paulo é Laboratório de Referência Nacional para Raiva do Ministério da Saúde e Centro Colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde em Raiva, recebendo inclusive amostras de outros países da região para análises especializadas (OPAS, 2026).
As primeiras vacinas antirrábicas estavam, porém, muito distantes dos produtos atuais. Preparadas a partir de tecido nervoso de animais infectados, elas foram sucessivamente modificadas, com formulações como as de Fermi e Semple e, posteriormente, a vacina de Fuenzalida-Palacios, produzida em cérebro de camundongos lactentes. Esta última representou importante avanço em relação às vacinas nervosas anteriores e teve ampla utilização na América Latina e no Brasil. Ainda assim, continha tecido nervoso e podia provocar eventos adversos neurológicos graves, inclusive reações desmielinizantes; documentos brasileiros estimavam essas reações em aproximadamente 1 para 120 mil vacinados e ressaltavam sua associação com o número de doses e a repetição dos esquemas (BRASIL, 2001). Além disso, a profilaxia das exposições consideradas graves podia exigir séries prolongadas: no Brasil foram empregados esquemas de dez doses consecutivas, seguidas de três reforços. Em outros contextos, vacinas de tecido nervoso chegaram a ser administradas em esquemas de 14 doses diárias, acrescidas de reforços (BRASIL, 2001; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1973).
A introdução das vacinas produzidas em cultivo celular modificou profundamente esse cenário. Mais purificadas, imunogênicas e muito mais seguras, reduziram os riscos relacionados aos componentes do tecido nervoso e permitiram esquemas com número substancialmente menor de aplicações. No Brasil, a substituição da vacina Fuenzalida-Palacios pelas vacinas de cultivo celular ocorreu no início dos anos 2000; a partir de 2003, estas passaram a ser utilizadas na rede pública (WADA; ROCHA; MAIA-ELKHOURY, 2011). Posteriormente, novas revisões do protocolo reduziram ainda mais o número de aplicações, até o esquema de quatro doses adotado no país para a profilaxia pós-exposição de pessoas não previamente vacinadas quando há indicação de vacinação (BRASIL, 2019).
Em paralelo à evolução das vacinas, consolidou-se a importância da imunização passiva. Estudos realizados em meados do século XX demonstraram o benefício da associação entre anticorpos antirrábicos e vacinação em exposições de maior risco, oferecendo proteção imediata enquanto se desenvolve a resposta imune ativa (HABEL; KOPROWSKI, 1955). Esse princípio permanece um dos pilares da profilaxia pós-exposição moderna: cuidado adequado da ferida, vacinação e, quando indicada, administração de soro antirrábico ou imunoglobulina humana antirrábica, com infiltração no local da exposição. Uma revisão sistemática contemporânea de casos fatais ocorridos apesar da profilaxia mostrou que as falhas são raras e frequentemente associadas a exposições graves ou a desvios na execução do protocolo, incluindo problemas na administração da imunização passiva (WHITEHOUSE et al., 2023).
No Brasil, a profilaxia ganhou dimensão nacional com a criação, em 1973, do Programa Nacional de Profilaxia da Raiva, que articulou atendimento pós-exposição, vacinação de cães e gatos, diagnóstico, vigilância e educação em saúde. O impacto dessas ações também pode ser observado na transformação da epidemiologia da raiva humana. O cão, historicamente o principal transmissor no ciclo urbano, perdeu progressivamente essa posição; o país completou, em 2026, dez anos sem casos humanos atribuídos às variantes típicas de cães. O vírus, entretanto, continua circulando em ciclos silvestres. Entre 2010 e junho de 2026 foram registrados 54 casos humanos no Brasil: 23 associados a morcegos, 12 a primatas não humanos, 10 a cães, cinco a felinos, dois a raposas, um a bovino e um a cervídeo. Atualmente, os morcegos constituem a principal fonte de infecção humana no país (BRASIL, 2026).
O futuro da profilaxia pós-exposição aponta para estratégias que preservem sua elevada efetividade, mas reduzam o número de doses, o tempo de tratamento, os custos e a dependência de produtos derivados de sangue. Nesse cenário, os anticorpos monoclonais antirrábicos constituem uma das inovações mais concretas: já são reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde como alternativa aos produtos convencionais de imunização passiva e podem favorecer maior disponibilidade e padronização dessa etapa da profilaxia. Em um horizonte mais experimental, novas plataformas, incluindo vacinas de RNA mensageiro, sistemas de liberação controlada e microagulhas, vêm sendo investigadas com o objetivo de permitir, futuramente, uma profilaxia vacinal pós-exposição em uma única intervenção. Essa possibilidade, contudo, ainda não foi estabelecida para uso clínico em seres humanos (SPARROW et al., 2019; GRAF; MCHUGH, 2026).
Em escala global, a evolução da profilaxia pós-exposição integra hoje uma estratégia mais ampla de eliminação. A Organização Mundial da Saúde, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a Organização Mundial de Saúde Animal e a Global Alliance for Rabies Control estabeleceram a estratégia “Zero by 30”, que propõe alcançar, até 2030, zero mortes humanas por raiva mediada por cães (WORLD HEALTH ORGANIZATION et al., 2018). A ampliação do acesso oportuno à profilaxia pós-exposição, ao lado da vacinação canina e da vigilância, constitui um dos eixos para atingir essa meta. Mais de 140 anos após o tratamento de Joseph Meister, a trajetória da profilaxia antirrábica mostra como uma intervenção experimental, incorporada precocemente pelo Brasil, pôde ser sucessivamente aperfeiçoada e transformada em política pública capaz de prevenir uma doença que, após o início dos sintomas, permanece quase invariavelmente fatal.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Manual de vigilância epidemiológica dos eventos adversos pós-vacinação. Brasília, DF: FUNASA, 2001.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Raiva: situação epidemiológica e ações de controle. Boletim Epidemiológico, número especial, set. 2019.
BRASIL. Ministério da Saúde. Raiva humana. Brasília, DF, 2026. Atualizado em 11 jun. 2026.
GOMES, M. M. Louis Pasteur and Dom Pedro II engaged in rabies vaccine development. Journal of Preventive Medicine and Hygiene, v. 62, n. 1, p. E231-E236, 2021. DOI: 10.15167/2421-4248/jpmh2021.62.1.1631.
HABEL, K.; KOPROWSKI, H. Laboratory data supporting the clinical trial of anti-rabies serum in persons bitten by a rabid wolf. Bulletin of the World Health Organization, v. 13, n. 5, p. 773-779, 1955.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). PAHO/WHO Collaborating Centre Spotlight Series: Zoonoses and Rabies. Washington, DC, 2026.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Instituto Pasteur. Histórico. São Paulo, 2026.
TARANTOLA, A. Four thousand years of concepts relating to rabies in animals and humans, its prevention and its cure. Tropical Medicine and Infectious Disease, v. 2, n. 2, art. 5, 2017. DOI: 10.3390/tropicalmed2020005.
TEIXEIRA, L. A.; SANDOVAL, M. R. C.; TAKAOKA, N. Y. Instituto Pasteur de São Paulo: cem anos de combate à raiva. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 11, n. 3, p. 751-766, 2004. DOI: 10.1590/S0104-59702004000300011.
WADA, M. Y.; ROCHA, S. M.; MAIA-ELKHOURY, A. N. S. Situação da raiva no Brasil, 2000 a 2009. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 20, n. 4, p. 509-518, 2011.
WHITEHOUSE, E. R. et al. Human rabies despite post-exposure prophylaxis: a systematic review of fatal breakthrough infections after zoonotic exposures. The Lancet Infectious Diseases, v. 23, n. 3, p. e167-e174, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Expert Committee on Rabies: sixth report. Geneva: WHO, 1973. (Technical Report Series, n. 523).
WORLD HEALTH ORGANIZATION et al. Zero by 30: the global strategic plan to end human deaths from dog-mediated rabies by 2030. Geneva: WHO, 2018.
SPARROW, E. et al. Recent advances in the development of monoclonal antibodies for rabies post exposure prophylaxis: a review of the current status of the clinical development pipeline. Vaccine, v. 37, supl. 1, p. A132-A139, 2019. DOI: 10.1016/j.vaccine.2018.11.004.
GRAF, T. P.; MCHUGH, K. J. Working towards a single-dose vaccine for rabies post-exposure prophylaxis. Future Virology, v. 21, n. 4, p. 275-288, 2026. DOI: 10.1080/17460794.2026.2667092.
