Escrito por: Leonardo Weissmann,
Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela USP e associado da SBI
Há epidemias que mudam estatísticas. Outras mudam a história. A de HIV/aids fez ambas.
Quando os primeiros casos foram reconhecidos no início da década de 1980, havia pouco conhecimento científico, nenhuma terapia eficaz e um enorme peso de medo, preconceito e desinformação. A infecção rapidamente ultrapassou os limites da Medicina: tornou-se um desafio ético, social e político. Exigia mais do que novos medicamentos. Exigia um novo modelo de saúde pública.
O Brasil respondeu de maneira singular. Em um período de redemocratização e de construção do Sistema Único de Saúde (SUS), consolidou-se uma visão que permanece atual: enfrentar uma epidemia depende de garantir acesso universal, combater desigualdades e colocar a ciência no centro das decisões. Essa escolha transformou o país em referência internacional.
A oferta gratuita da terapia antirretroviral para todas as pessoas vivendo com HIV, ainda na década de 1990, representou uma das decisões mais ousadas da saúde pública mundial. Em uma época de incertezas, o Brasil optou por investir na vida. O resultado foi inequívoco: redução da mortalidade, aumento da sobrevida, prevenção de novas infecções e fortalecimento de uma política pública baseada em evidências.
Entretanto, a resposta brasileira nunca foi construída apenas nos gabinetes. Ela nasceu da convergência entre pesquisadores, profissionais de saúde, universidades, gestores, movimentos sociais e pessoas vivendo com HIV. Poucas vezes a ciência e a sociedade caminharam tão próximas. Essa capacidade de transformar conhecimento em políticas públicas talvez seja o maior legado da resposta nacional à epidemia.
A Infectologia brasileira cresceu junto com essa história. O HIV impulsionou avanços na assistência, na pesquisa clínica, na vigilância epidemiológica, no diagnóstico laboratorial e na organização dos serviços especializados. Formou gerações de profissionais, consolidou linhas de pesquisa e fortaleceu a produção científica nacional. Mais do que acompanhar uma epidemia, a especialidade ajudou a redefinir a forma de cuidar de pacientes com doenças infecciosas.
Nesse percurso, a Sociedade Brasileira de Infectologia ocupou posição de destaque. Ao longo de mais de quatro décadas, promoveu educação médica continuada, estimulou a pesquisa, reuniu especialistas, elaborou consensos e diretrizes e contribuiu para que o conhecimento científico chegasse rapidamente à prática clínica. Em diferentes momentos, foi uma voz técnica qualificada na defesa de políticas públicas baseadas em evidências, reafirmando que o enfrentamento do HIV exige compromisso permanente com a ciência e com a saúde coletiva.
A epidemia, contudo, está longe de ser apenas uma memória. O diagnóstico tardio ainda compromete o prognóstico de milhares de brasileiros. O estigma continua afastando pessoas dos serviços de saúde. Persistem desigualdades regionais, dificuldades de retenção no cuidado e desafios impostos pelo envelhecimento das pessoas vivendo com HIV.
Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão próximos de controlar a epidemia. A prevenção combinada, a profilaxia pré e pós-exposição, os esquemas antirretrovirais cada vez mais simples e eficazes e o conceito de que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual (I = I) representam uma verdadeira revolução. São conquistas que demonstram como a ciência modifica realidades quando encontra políticas públicas consistentes.
Olhar para a trajetória brasileira no enfrentamento do HIV/aids é reconhecer uma das experiências mais bem-sucedidas da saúde pública contemporânea. Não porque todos os desafios tenham sido superados, mas porque o país demonstrou que decisões fundamentadas em evidências, acesso universal à saúde e compromisso social podem transformar uma doença antes fatal em uma condição crônica controlável.
Essa é uma memória que merece ser preservada. Mais do que recordar o passado, ela ilumina o futuro. Em tempos de novas emergências sanitárias, desinformação e ameaças à confiança na ciência, a resposta brasileira ao HIV/aids continua lembrando que o conhecimento científico, quando aliado à solidariedade e às políticas públicas, permanece sendo a ferramenta mais poderosa para proteger vidas.
