A amamentação nos primeiros meses de vida é considerada como a primeira e uma das mais importantes vacinas que um ser humano recebe, o leite materno é um dos pilares fundamentais da saúde pública e do controle de infecções na primeira infância. Na Semana Mundial do Aleitamento Materno, a SBI reforça que a amamentação transfere defesas vivas essenciais para o bebê.
Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, consolidadas no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, e da Organização Pan-Americana da Saúde, a recomendação permanece inalterada: o aleitamento materno deve ser exclusivo até os seis meses de idade e complementado com alimentos naturais e saudáveis até os dois anos ou mais.
A biologia da imunidade e a formação da microbiota
Pesquisas elaboradas pela Sociedade Brasileira de Pediatria evidenciam que o leite humano é um tecido vivo e dinâmico. A principal imunoglobulina presente (a IgA secretora) age de forma direcionada: ela reveste as mucosas do intestino e dos pulmões da criança, formando uma barreira física que bloqueia a entrada de vírus e bactérias.
Ao mesmo tempo, o leite materno atua como o principal arquiteto da flora intestinal do bebê. A substância é rica em oligossacarídeos (HMOs), carboidratos que o lactente não consegue digerir, mas que possuem uma ótima função evolutiva: servir de alimento exclusivo para bactérias benéficas, como as bifidobactérias. Essa colonização saudável da microbiota impede a proliferação de microrganismos causadores de doenças graves.
Além disso, cada gota de leite contém milhares de células vivas de defesa, como macrófagos e glóbulos brancos. Estudos recentes documentaram, inclusive, a transferência de altos níveis de anticorpos neutralizantes contra vírus respiratórios contemporâneos, como o da Covid-19, diretamente da mãe para o filho durante a lactação.
O impacto epidemiológico na prevenção de doenças
Assim como a vacinação e a higienização das mãos, o aleitamento possui um impacto coletivo e epidemiológico direto na sobrevivência infantil. Dados da Organização Mundial da Saúde estimam que o aleitamento materno universal poderia salvar a vida de mais de 820 mil crianças anualmente.
A proteção imunológica oferecida nos primeiros anos de vida desdobra-se em diversas frentes de prevenção:
- Redução da mortalidade infantil: o aleitamento pode diminuir em 13% as mortes por causas evitáveis em crianças menores de cinco anos.
- Proteção contra infecções agudas: reduz drasticamente a incidência, a frequência e a gravidade de infecções gastrointestinais (diarreias) e doenças respiratórias, que frequentemente demandam internação hospitalar.
- Prevenção da morte súbita: bebês amamentados apresentam um risco 60% menor de síndrome da morte súbita infantil em comparação aos que não recebem o leite materno.
- Benefícios a longo prazo: a amamentação funciona como uma programação metabólica, diminuindo em 13% o risco de sobrepeso e obesidade, em 35% o risco de diabetes tipo 2 e em 19% o risco de leucemia na infância.
O desafio comercial e a proteção da amamentação
Apesar de todas as evidências biológicas e epidemiológicas, a manutenção do aleitamento materno exclusivo muitas vezes esbarra em um ambiente comercial hostil. Para garantir a segurança alimentar dos bebês, o Brasil possui a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, desenhada para inibir o marketing abusivo de produtos que competem com a amamentação.
No entanto, um levantamento recente do Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância), coordenado pela Fiocruz, revelou um cenário de alerta: seis em cada dez farmácias e supermercados brasileiros descumprem a legislação de proteção ao aleitamento.
Os dados mostram que os principais infratores são as promoções irregulares e a exposição inadequada de produtos como:
- Fórmulas infantis e compostos lácteos;
- Papinhas industrializadas;
- Mamadeiras e chupetas (conhecidas por causar “confusão de bicos” e levar ao desmame precoce).
O papel dos Bancos de Leite Humano
Apesar dos benefícios, a amamentação esbarra em desafios comerciais. A Fiocruz alerta que seis em cada dez farmácias e supermercados descumprem a legislação que inibe o marketing abusivo de fórmulas, papinhas, mamadeiras e chupetas, itens que favorecem o desmame precoce.
Por outro lado, o apoio à amamentação salva vidas nas UTIs neonatais. Para prematuros, o leite doado aos Bancos de Leite e pasteurizado (livre de patógenos) age quase como um medicamento, garantindo a imunidade de bebês altamente vulneráveis.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Infectologia reafirma seu compromisso com a proteção e a promoção do aleitamento materno. A instituição destaca que apoiar a amamentação é uma das medidas de infectologia preventiva mais eficazes para garantir um futuro protegido contra infecções para toda a sociedade.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2019.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Brasil descumpre legislação que protege o aleitamento materno. Portal DSSBR (Determinantes Sociais da Saúde). Rio de Janeiro: ENSP/Fiocruz, 24 maio 2022.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS); ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Aleitamento materno e alimentação complementar. Washington, DC: OPAS, [2026].
INSTITUTO NACIONAL DE SAÚDE DA MULHER, DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE FERNANDES FIGUEIRA (IFF/FIOCRUZ). Agosto Dourado: IFF/Fiocruz reforça importância da amamentação e doação de leite humano. Rio de Janeiro: IFF/Fiocruz, 2026.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Departamento Científico de Aleitamento Materno. Documentos científicos de aleitamento materno da SBP. Rio de Janeiro: SBP, 2026.
