Por Stefan Cunha Ujvari*
A medicina brasileira foi agraciada por uma pequena pitada de sorte. Emílio Ribas, nascido em Pindamonhangaba, buscou ascensão profissional na faculdade de medicina do Rio de Janeiro em 1882. Deveria, como a maioria dos jovens à época, retornar a sua cidade natal e por lá permanecer incógnito em uma clínica privada. Mas não foi o que ocorreu. Ribas era dinâmico, republicano e amante das descobertas médicas que afloravam na Europa.
Após emprego como médico na construção da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, abraçou o convite para ser inspetor do Serviço Sanitário de São Paulo, em 1896. A instituição criada em 1891 com a República, trouxe a oportunidade para Ribas colocar em prática todas as medidas de higiene inovadoras. Foi nesse serviço que Ribas mostrou originalidade nas suas convicções, e coragem no enfrentamento de vozes contrárias.
Percorreu cidades interioranas de São Paulo conforme a necessidade na contenção de epidemias ou surtos. Obedecia às ordens superiores e se impunha aos contrários. Os problemas sanitários eram inúmeros. O estado de São Paulo era rasgado por diversas redes ferroviárias na carona das plantações de café, os trilhos avançavam ao interior distante. Nos vagões dos trens, outro intruso se aproveitava para conquistar o interior: o vírus da febre amarela. As cidades cresciam e se multiplicavam com imigrantes europeus desembarcando a todo momento. Suas vestes e bagagens eram borrifadas com produtos desinfetantes, inúteis às epidemias.
Ribas enfrentou os dissidentes de seu trabalho, a começar pelos médicos que discordavam das medidas inovadoras, e se agarravam às antigas teorias. Trabalhava sob críticas constantes. Moradores rejeitavam as inspeções domiciliares e refutavam pareceres de que precisavam realizar reformas ou mudanças de higienização nas suas casas. Desinfecções em moradias e vias públicas ainda eram ridicularizadas.
Já nesse período, Ribas mostrou sua intuição de um bom pesquisador. Os surtos de febre amarela não se alteravam com o isolamento de doentes e nem com as desinfecções. Ribas estava desconfiado de outra causa, mas até aquele momento apenas seguia ordens. Mas isso mudaria ao ser convidado para diretor do Serviço Sanitário de São Paulo com apenas 36 anos de idade, em 1898. Isso graças a sua dedicação como inspetor, e ao reconhecimento de sua atuação. Tanto que o convite veio do Presidente do Estado de São Paulo.
Ribas dirigiu o Serviço de 1898 a 1917, e aprimorou a saúde pública estadual. Graças a sua visão empreendedora cimentada com seu conhecimento médico, sua atualização através de correspondências com médicos europeus e americanos, além de atualização em revistas especializadas.
O Serviço Sanitário seguia os modelos europeus de higienização. Concentrava a atuação de vários braços como laboratório de análises clínicas e bacteriológicas, institutos de farmacologia, e produção de vacinas. O primeiro grande desafio de Ribas foi a chegada da peste bubônica ao porto de Santos em 1899. Nesse episódio, Ribas conviveu com críticas, acusações de incompetência, e novamente mostrou sua coragem e visão de futuro.
Ribas confirmou o resultado das análises realizadas por Adolfo Lutz do Instituto Bacteriológico, a epidemia de Santos era causada pela bactéria da temida peste bubônica. Enfrentou jornalistas e a câmara municipal da cidade que desacreditava a conclusão. Tamanha epidemia arruinaria o comércio santista. Novamente, manteve-se firme quando o governo federal chamou o jovem Oswaldo Cruz para validar os resultados. E mais, diante da peste, atuou firmemente na criação do Instituto Butantã.
O destemido Ribas ainda realizou estudos no Hospital do Isolamento de São Paulo para convencer vozes médicas contrárias de que os mosquitos transmitiam a febre amarela. Somente assim poderíamos combater o inimigo. Sua convicção vinha de correspondências com médicos estrangeiros e atualização nos trabalhos realizados em Cuba. Ribas arregimentou voluntários que foram colocados em contato com mosquitos infectados e adoeceram, enquanto outros dormiram em travesseiros, fronhas, cobertores e lençois utilizados por doentes e não adoeceram. Médicos relutantes foram obrigados a aceitar a nova teoria de que mosquitos eram os responsáveis pela febre amarela, uma doença não contagiosa.
Suas inovações no sistema de saúde paulista foram os alicerces do século XX. Ribas dividiu o estado em 14 distritos sanitários com sedes nas grandes cidades interioranas. Produziu panfletos educativos sobre como combater os mosquitos. Atuou na criação do sanatório de Campos de Jordão para isolamento de pacientes tuberculosos, além da construção da estrada de ferro que uniria o Vale do Paraíba a cidade.
Após quase vinte anos na liderança do Serviço Sanitário se aposentou em 1917 e veio a falecer há um século em 1925. Deixou seu legado na história da medicina brasileira por suas inovações, visão de futuro e coragem. Por isso, é um dos maiores nomes da nossa medicina e da infectologia.
*Stefan Cunha Ujvari é médico infectologista e professor de infectologista da Faculdade de Medicina de Jundiaí – FMJ. Mestre em doenças infecciosas e especialista em doenças infecciosas e parasitárias pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi professor substituto da disciplina de Emergência Médica na mesma universidade. Autor dos livros A História das Epidemias, A História da Humanidade Contada Pelos Vírus, A História do Século XX Pelas Descobertas da Medicina (com Tarso Adoni) e Pandemias, todos publicados pela Contexto.
