Por Lucy Cavalcanti Ramos Vasconcelos,
Antônio Sérgio Mathias e
Henrique Bulgarelli Dora
Durante boa parte do século XX, a poliomielite esteve entre as doenças infectocontagiosas mais temidas pela saúde pública. A infecção pelo poliovírus era capaz de deixar crianças com paralisia permanente e, nos casos mais graves, comprometer a respiração. Não havia um tratamento padronizado capaz de frear o curso natural da doença. Dessa forma, a busca por formas de prevenção tornou-se uma das prioridades da comunidade científica à época.

Albert Bruce Sabin nasceu em 1906, em Białystok, na atual Polônia. Em 1921, sua família mudou-se para os Estados Unidos para fugir da perseguição aos judeus. Anos depois, Sabin formou-se em Medicina pela Universidade de Nova York, em 1931, e começou a estudar a poliomielite por incentivo de seu mentor, William Hallock Park, dedicando décadas à pesquisa que mudaria o curso de sua carreira e da saúde pública.

Como Sabin chegou à vacina oral
A contribuição de Sabin começou antes da criação da vacina. Seus estudos ajudaram a esclarecer aspectos da infecção pelo poliovírus, que se multiplica no intestino, e o papel da transmissão fecal-oral em sua cadeia de disseminação. Essa compreensão orientou sua pesquisa: uma vacina administrada por via oral poderia induzir imunidade intestinal no principal local de replicação do vírus.
Sabin, contudo, não foi o criador da primeira vacina contra a poliomielite. Em 1955, Jonas Salk já havia desenvolvido uma vacina inativada e injetável, capaz de proteger contra as formas paralíticas da doença. A pesquisa de vacinas vivas atenuadas também vinha sendo desenvolvida por outros grupos. Sabin seguiu esse caminho no Hospital Infantil de Cincinnati, trabalhando com poliovírus vivos atenuados, isto é, enfraquecidos, para desenvolver uma vacina administrada por via oral que, além de proteger a pessoa vacinada, produzisse uma resposta imune no intestino e contribuísse para reduzir a transmissão do vírus.
O desenvolvimento não foi imediato. Após os estudos iniciais, a vacina precisou ser avaliada em grandes populações. Sabin colaborou com o virologista Mikhail Chumakov na União Soviética, onde foram realizados estudos que envolveram milhares e, posteriormente, milhões de crianças. Também foram conduzidos estudos na Tchecoslováquia. Avaliações internacionais contribuíram para a confirmação dos resultados. A vacina oral passou a ser utilizada em larga escala no início da década de 1960, tornando-se uma das principais ferramentas de combate à poliomielite.
Por que as gotinhas mudaram as campanhas?
A contribuição de Sabin começou antes da criação da vacina. Seus estudos ajudaram a esclarecer aspectos da infecção pelo poliovírus, que se multiplica no intestino, e o papel da transmissão fecal-oral em sua cadeia de disseminação. Essa compreensão orientou sua pesquisa: uma vacina administrada por via oral poderia induzir imunidade intestinal no principal local de replicação do vírus.
Sabin, contudo, não foi o criador da primeira vacina contra a poliomielite. Em 1955, Jonas Salk já havia desenvolvido uma vacina inativada e injetável, capaz de proteger contra as formas paralíticas da doença. A pesquisa de vacinas vivas atenuadas também vinha sendo desenvolvida por outros grupos. Sabin seguiu esse caminho no Hospital Infantil de Cincinnati, trabalhando com poliovírus vivos atenuados, isto é, enfraquecidos, para desenvolver uma vacina administrada por via oral que, além de proteger a pessoa vacinada, produzisse uma resposta imune no intestino e contribuísse para reduzir a transmissão do vírus.
O desenvolvimento não foi imediato. Após os estudos iniciais, a vacina precisou ser avaliada em grandes populações. Sabin colaborou com o virologista Mikhail Chumakov na União Soviética, onde foram realizados estudos que envolveram milhares e, posteriormente, milhões de crianças. Também foram conduzidos estudos na Tchecoslováquia. Avaliações internacionais contribuíram para a confirmação dos resultados. A vacina oral passou a ser utilizada em larga escala no início da década de 1960, tornando-se uma das principais ferramentas de combate à poliomielite.
A vacina oral contra a poliomielite, conhecida como VOP, era simples de administrar: podia ser oferecida em gotas, sem necessidade de injeção. Essa característica facilitou campanhas capazes de imunizar grandes contingentes da população pediátrica em curto período de tempo, inclusive em áreas de difícil acesso aos serviços de saúde.
Seu funcionamento também apresentava uma característica importante para o controle da transmissão. Após receber a vacina, a criança pode eliminar o vírus vacinal nas fezes por determinado período. Em algumas condições, esse vírus pode ser transmitido a contatos próximos pela via fecal-oral e induzir proteção em pessoas que não haviam recebido diretamente o imunizante. Em comunidades com saneamento inadequado, esse fenômeno poderia ampliar o alcance indireto da vacinação.
Mais importante, a VOP produz imunidade intestinal, dificultando a multiplicação do poliovírus no intestino e contribuindo para reduzir sua transmissão.
Essa proteção indireta não substituía a vacinação de cada criança. Para controlar a doença, era necessário alcançar altas coberturas vacinais e manter a vacinação ao longo do tempo. A força da vacina de Sabin estava na combinação entre suas características biológicas e a capacidade dos programas de saúde de levá-la à população.

O impacto da vacina de Sabin no Brasil
Em 1980, começaram os Dias Nacionais de Vacinação contra a poliomielite, uma estratégia de vacinação em massa que passou a ocupar papel central nas ações brasileiras de controle da doença. Naquele ano, o Brasil registrou 1.290 casos confirmados; em 1981, foram 122, uma redução de aproximadamente 90,5%. O resultado não significou que o trabalho estivesse concluído: houve novos surtos durante a década, incluindo 612 casos em 1986, o que apontava a necessidade de manter tanto a estratégia de imunização quanto a vigilância epidemiológica ativa.
Foi nesse contexto que nasceu um dos personagens mais conhecidos da saúde pública brasileira: o Zé Gotinha, criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa para as campanhas de vacinação contra a poliomielite. A figura ajudou a tornar as campanhas mais próximas das famílias e acabou se tornando um símbolo da imunização no país.

Entre 1968 e 1989, o Ministério da Saúde contabilizou 26.827 casos confirmados de poliomielite no Brasil. O último caso de poliomielite causado pelo poliovírus selvagem no país ocorreu em março de 1989, no município de Sousa, na Paraíba. Em 1994, a Região das Américas foi certificada como livre da circulação do poliovírus selvagem. O Ministério da Saúde aponta as campanhas de vacinação em massa com a VOP como estratégia central para a eliminação da doença no país.
As gotinhas, portanto, fizeram parte de algo maior: equipes de vacinação, mobilização das famílias, comunicação pública e acompanhamento dos casos suspeitos. A história brasileira da pólio é também a história de como um programa de imunização pode levar uma descoberta científica a milhões de pessoas.
“Um presente para todas as crianças do mundo”
Sabin defendia que sua vacina tivesse o maior alcance possível. Segundo registros históricos e publicação na revista Emerging Infectious Diseases, ele decidiu não patentear a vacina nem explorá-la comercialmente, favorecendo sua produção e utilização em larga escala. Ao comentar essa decisão, declarou: “It’s my gift to all the world’s children”, em livre tradução, “É meu presente para todas as crianças do mundo”.
Sabin abriu mão da exclusividade comercial de sua descoberta. Sua decisão combina com a dimensão coletiva do trabalho que realizou: uma vacina só pode mudar a história de uma doença quando chega às pessoas que precisam dela.
Um legado que continua
A vacina oral foi usada por décadas e ajudou a reduzir a poliomielite em todo o mundo. Com a queda dos casos causados pelo poliovírus selvagem, porém, tornou-se necessário considerar os riscos raros associados ao vírus vacinal atenuado. Em comunidades com baixa cobertura vacinal, o vírus derivado da vacina pode circular por períodos prolongados e sofrer alterações capazes de causar doença. Por isso, as estratégias de vacinação precisam ser adaptadas conforme o cenário epidemiológico.
No Brasil, desde 4 de novembro de 2024, a vacinação de rotina contra a poliomielite utiliza exclusivamente a vacina inativada, a VIP. Em 3 de agosto de 2026, o calendário passou a incluir um segundo reforço com VIP aos quatro anos. A mudança encerrou o uso rotineiro das gotinhas, mas não sua importância histórica.
Manter altas coberturas vacinais continua essencial, pois a poliomielite ainda não foi erradicada no mundo e o poliovírus pode voltar a circular onde encontrar pessoas desprotegidas.
Albert Sabin morreu em 1993. Seu legado permanece na ciência que tornou possível a vacina oral e nas campanhas que a transformaram em proteção para populações inteiras. No Brasil, essa história ainda tem um rosto familiar: o Zé Gotinha, lembrança de que as grandes conquistas da saúde pública dependem tanto das descobertas científicas quanto da capacidade de fazê-las chegar a cada criança.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Casos confirmados de poliomielite segundo regiões: Brasil, 1968 a 1989. [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/poliomielite/situacao-epidemiologica/tabela-de-casos-de-poliomielite-regioes.pdf.
BRASIL. Ministério da Saúde. Situação epidemiológica: poliomielite. [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/poliomielite/situacao-epidemiologica.
BRASIL. Ministério da Saúde. Zé Gotinha. [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/campanhas-da-saude/vacinacao/ze-gotinha.
GLOBAL POLIO ERADICATION INITIATIVE. History of polio. [S. l.]: GPEI, [s. d.]. Disponível em: https://polioeradication.org/about-polio/history-of-polio/. Acesso em: 22 set. 2026.
SABIN VACCINE INSTITUTE. The legacy of Dr. Albert B. Sabin. [S. l.]: Sabin Vaccine Institute, [s. d.]. Disponível em: https://www.sabin.org/about/our-history/dr-albert-b-sabin/. Acesso em: 22 set. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. History of polio vaccination. [S. l.]: WHO, [s. d.]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/spotlight/history-of-vaccination/history-of-polio-vaccination. Acesso em: 22 set. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Poliovirus vaccines. [S. l.]: WHO, [s. d.]. Disponível em: https://www.who.int/groups/global-advisory-committee-on-vaccine-safety/topics/poliovirus-vaccines. Acesso em: 22 set. 2026.
