Escrito por: Marcelo Cecílio Dahe
Médico infectologista, membro do comitê de imunizações da SBI
Luis Pasteur (1822–1895) é considerado um dos grandes nomes da biologia moderna.
Vindo de uma família humilde do interior da França, sendo o único filho homem, Pasteur destacou-se aos quinze anos de idade, tendo recebido todos os prêmios escolares na época. Posteriormente, ingressou no setor de ciências da École Normale, em Paris.
Em agosto de 1847, tornou-se “docteur-ès-sciences” com base em teses de física e de química.
Em 1853, recebeu o prêmio da Sociedade de Farmácia por seu trabalho com o ácido racêmico e a cristalografia, passando a ser cogitado para a Academia de Ciências de Paris (fato que ocorreria em 1862).
A partir de 1856, voltou-se para o estudo da fermentação e para o problema da pebrina (doença do bicho-da-seda), que afetava a indústria francesa.
Quando Pasteur ingressou na área médica e veterinária, obteve sucesso rápido. Seu trabalho sobre a etiologia do carbúnculo ampliou e reforçou os estudos de Koch. Um ponto fundamental revelado por Pasteur e seus colaboradores para a prevenção e o combate a doenças foi a vacinação.
Em 1880, anunciou a descoberta de uma vacina contra o cólera das galinhas e, em 1881, a vacina contra o carbúnculo, que passou a ser produzida em larga escala.
Em 1884, as pesquisas da vacina contra a raiva já estavam avançadas, e a busca por um local para abrigar os animais causou descontentamento e protestos da população.
Em julho de 1885, a vacina antirrábica foi aplicada pela primeira vez em um ser humano com sucesso triunfal, o que elevou o laboratório ao status de Instituto em 1888. Com renome mundial, Pasteur e sua instituição receberam doações e expandiram sua atuação globalmente.
Pesquisas Científicas
No início de sua carreira, surgiu sua pesquisa mais profunda e menos famosa: a atividade óptica, a estrutura cristalina e a composição química dos compostos orgânicos, em especial os ácidos tartárico e paratartárico.
Da cristalografia e da química estrutural, passou a dedicar-se à fermentação e à geração espontânea. Ele contribuiu de maneira decisiva para consolidar a teoria microbiológica da fermentação e refutar a geração espontânea, origem do processo conhecido como pasteurização.
A partir da atenuação do agente causador do cólera das galinhas, surgiu a primeira vacina produzida em laboratório. Alguns atribuem essa descoberta ao acaso, pois Pasteur estava de férias em Arbois e seus colaboradores deixaram a cultura de bactérias exposta mais tempo do que o necessário, atenuando as cepas. Estudos recentes indicam que isso já fazia parte das pesquisas de Émile Roux.
Ficou célebre a máxima de Pasteur: “O acaso só favorece as mentes preparadas”.
Pasteur patenteou processos de fermentação alcoólica, o filtro bacteriano (filtro de Chamberland-Pasteur), além de métodos de fabricação e conservação de vinho, vinagre e cerveja.
| Esboço cronológico dos principais interesses de pesquisa de Pasteur |
| 1847-1857 Cristalografia: atividade óptica e assimetria cristalina |
| 1857-1865 Fermentação e geração espontânea; estudos sobre o vinagre e o vinho |
| 1871-1876 Estudos sobre a cerveja; novos debates sobre a fermentação e a geração espontânea |
| 1877-1895 Etiologia e profilaxia das doenças infecciosas: carbúnculo, cólera das aves, erisipela dos porcos, hidrofobia |
| Fonte: Geison, 1974 p.351. |
Pasteur e a vacina antirrábica
"Na segunda-feira, 6 de julho de 1885, três visitantes assustados e inesperados dirigiram-se ao laboratório de Pasteur, no número 45 da rue d'Ulm. Haviam chegado de trem a Paris, vindos de um vilarejo da Alsácia onde, dois dias antes, em 4 de julho, dois deles tinham sido atacados por um cão que manifestava todos os sinais clássicos da raiva. Uma das vítimas era o dono do cachorro, um merceeiro chamado Théodore Vone. O cão machucara seus braços, mas sem lhe perfurar a camisa ou a pele. Os outros dois visitantes eram um menino camponês de nove anos, chamado Joseph Meister, e sua mãe aflita, que não fora atacada pelo cão, mas acompanhava o filho, violentamente mordido. O menino recebeu cerca de doze dentadas ou mais, apresentando ferimentos graves no dedo médio da mão direita, nas coxas e nas panturrilhas, alguns tão profundos que mal conseguia andar. Suas calças tinham sido reduzidas a farrapos. As piores mordidas do jovem Meister tinham sido cauterizadas com ácido carbólico por um médico local, mas apenas doze horas após o ataque."
(A ciência particular de Louis Pasteur / Gerald L. Geison; tradução de Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro: Fiocruz: Contraponto, 2002)
Pasteur resolveu tratar o jovem com um método até então testado apenas em cães. O menino e a mãe foram acomodados em um anexo do laboratório e, às 20h de 6 de julho, o jovem Meister recebeu a primeira das 13 injeções aplicadas nos dias subsequentes. O jovem sobreviveu tanto à raiva quanto ao tratamento.
Em 17 de outubro de 1885, Pasteur recebeu a solicitação do prefeito de Villers-Farlay para atender um jovem pastor de 15 anos atacado e mordido por um cão raivoso três dias antes. Pasteur respondeu de imediato, fazendo algumas ressalvas:
- Como o jovem só conseguiria chegar a Paris dias depois, as feridas já teriam de 6 a 7 dias, o que levantava dúvidas sobre a eficácia do tratamento após esse intervalo. Ainda assim, Pasteur prontificou-se a custear a hospedagem e o tratamento do jovem.
- O tratamento do jovem Jupille começou às 11h do dia 20 de outubro.
Uma curiosidade sobre Joseph Meister: ele dedicou a vida ao Instituto Pasteur, onde trabalhou como zelador.
Em 1940, durante a ocupação alemã na França, os primeiros soldados nazistas compareceram ao Instituto pedindo para visitar a cripta de Pasteur. Meister recusou-se a permitir a entrada. Os soldados empurraram-no e entraram na cripta. Em seguida, Meister cometeu suicídio em seu quarto com uma pistola.Louis Pasteur (1822–1895) é considerado um dos grandes nomes da biologia moderna.
Vindo de uma família humilde do interior da França, sendo o único filho homem, Pasteur destacou-se aos quinze anos de idade, tendo recebido todos os prêmios escolares na época. Posteriormente, ingressou no setor de ciências da École Normale, em Paris.
Em agosto de 1847, tornou-se “docteur-ès-sciences” com base em teses de física e de química.
Em 1853, recebeu o prêmio da Sociedade de Farmácia por seu trabalho com o ácido racêmico e a cristalografia, passando a ser cogitado para a Academia de Ciências de Paris (fato que ocorreria em 1862).
A partir de 1856, voltou-se para o estudo da fermentação e para o problema da pebrina (doença do bicho-da-seda), que afetava a indústria francesa.
Quando Pasteur ingressou na área médica e veterinária, obteve sucesso rápido. Seu trabalho sobre a etiologia do carbúnculo ampliou e reforçou os estudos de Koch. Um ponto fundamental revelado por Pasteur e seus colaboradores para a prevenção e o combate a doenças foi a vacinação.
Em 1880, anunciou a descoberta de uma vacina contra o cólera das galinhas e, em 1881, a vacina contra o carbúnculo, que passou a ser produzida em larga escala.
Em 1884, as pesquisas da vacina contra a raiva já estavam avançadas, e a busca por um local para abrigar os animais causou descontentamento e protestos da população.
Em julho de 1885, a vacina antirrábica foi aplicada pela primeira vez em um ser humano com sucesso triunfal, o que elevou o laboratório ao status de Instituto em 1888. Com renome mundial, Pasteur e sua instituição receberam doações e expandiram sua atuação globalmente.
Pesquisas Científicas
No início de sua carreira, surgiu sua pesquisa mais profunda e menos famosa: a atividade óptica, a estrutura cristalina e a composição química dos compostos orgânicos, em especial os ácidos tartárico e paratartárico.
Da cristalografia e da química estrutural, passou a dedicar-se à fermentação e à geração espontânea. Ele contribuiu de maneira decisiva para consolidar a teoria microbiológica da fermentação e refutar a geração espontânea, origem do processo conhecido como pasteurização.
A partir da atenuação do agente causador do cólera das galinhas, surgiu a primeira vacina produzida em laboratório. Alguns atribuem essa descoberta ao acaso, pois Pasteur estava de férias em Arbois e seus colaboradores deixaram a cultura de bactérias exposta mais tempo do que o necessário, atenuando as cepas. Estudos recentes indicam que isso já fazia parte das pesquisas de Émile Roux.
Ficou célebre a máxima de Pasteur: “O acaso só favorece as mentes preparadas”.
Pasteur patenteou processos de fermentação alcoólica, o filtro bacteriano (filtro de Chamberland-Pasteur), além de métodos de fabricação e conservação de vinho, vinagre e cerveja.
| Esboço cronológico dos principais interesses de pesquisa de Pasteur |
| 1847-1857 Cristalografia: atividade óptica e assimetria cristalina |
| 1857-1865 Fermentação e geração espontânea; estudos sobre o vinagre e o vinho |
| 1871-1876 Estudos sobre a cerveja; novos debates sobre a fermentação e a geração espontânea |
| 1877-1895 Etiologia e profilaxia das doenças infecciosas: carbúnculo, cólera das aves, erisipela dos porcos, hidrofobia |
| Fonte: Geison, 1974 p.351. |
Pasteur e a vacina antirrábica
"Na segunda-feira, 6 de julho de 1885, três visitantes assustados e inesperados dirigiram-se ao laboratório de Pasteur, no número 45 da rue d'Ulm. Haviam chegado de trem a Paris, vindos de um vilarejo da Alsácia onde, dois dias antes, em 4 de julho, dois deles tinham sido atacados por um cão que manifestava todos os sinais clássicos da raiva. Uma das vítimas era o dono do cachorro, um merceeiro chamado Théodore Vone. O cão machucara seus braços, mas sem lhe perfurar a camisa ou a pele. Os outros dois visitantes eram um menino camponês de nove anos, chamado Joseph Meister, e sua mãe aflita, que não fora atacada pelo cão, mas acompanhava o filho, violentamente mordido. O menino recebeu cerca de doze dentadas ou mais, apresentando ferimentos graves no dedo médio da mão direita, nas coxas e nas panturrilhas, alguns tão profundos que mal conseguia andar. Suas calças tinham sido reduzidas a farrapos. As piores mordidas do jovem Meister tinham sido cauterizadas com ácido carbólico por um médico local, mas apenas doze horas após o ataque."
(A ciência particular de Louis Pasteur / Gerald L. Geison; tradução de Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro: Fiocruz: Contraponto, 2002)
Pasteur resolveu tratar o jovem com um método até então testado apenas em cães. O menino e a mãe foram acomodados em um anexo do laboratório e, às 20h de 6 de julho, o jovem Meister recebeu a primeira das 13 injeções aplicadas nos dias subsequentes. O jovem sobreviveu tanto à raiva quanto ao tratamento.
Em 17 de outubro de 1885, Pasteur recebeu a solicitação do prefeito de Villers-Farlay para atender um jovem pastor de 15 anos atacado e mordido por um cão raivoso três dias antes. Pasteur respondeu de imediato, fazendo algumas ressalvas:
- Como o jovem só conseguiria chegar a Paris dias depois, as feridas já teriam de 6 a 7 dias, o que levantava dúvidas sobre a eficácia do tratamento após esse intervalo. Ainda assim, Pasteur prontificou-se a custear a hospedagem e o tratamento do jovem.
- O tratamento do jovem Jupille começou às 11h do dia 20 de outubro.
Uma curiosidade sobre Joseph Meister: ele dedicou a vida ao Instituto Pasteur, onde trabalhou como zelador.
Em 1940, durante a ocupação alemã na França, os primeiros soldados nazistas compareceram ao Instituto pedindo para visitar a cripta de Pasteur. Meister recusou-se a permitir a entrada. Os soldados empurraram-no e entraram na cripta. Em seguida, Meister cometeu suicídio em seu quarto com uma pistola.
Referências
GEISON, Gerald L. A ciência particular de Louis Pasteur. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Fiocruz: Contraponto, 2002.
DEVILLE, Patrik. Peste e cólera. Tradução de Marina Scalzo. São Paulo: Editora 34, 2017.
