A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) que continua representando um importante desafio para a saúde pública no Brasil. Causada pela bactéria Treponema pallidum, a doença tem cura, mas pode evoluir silenciosamente e provocar complicações graves quando não diagnosticada e tratada adequadamente.
Os dados nacionais mostram a dimensão do problema. Em 2024, o Brasil registrou 256.830 casos de sífilis adquirida, 89.724 casos em gestantes e 24.443 casos de sífilis congênita, além de 183 óbitos por essa última forma da doença, segundo o Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, do Ministério da Saúde.
A infecção pode ser transmitida principalmente pelo contato direto com lesões sifilíticas durante relações sexuais vaginais, anais ou orais. Essas lesões nem sempre são percebidas, o que facilita a transmissão. A sífilis também pode ser transmitida da gestante para o bebê durante a gravidez e, em determinadas situações, no parto.
Para compreender os riscos da doença, é importante conhecer suas diferentes fases e entender por que o desaparecimento dos sintomas não significa que a infecção foi eliminada.
Como ocorre a transmissão?
A principal forma de transmissão da sífilis é sexual, por meio do contato direto com lesões infecciosas presentes na pele ou nas mucosas. O uso de preservativos reduz o risco de transmissão, embora não ofereça proteção completa quando há lesões em áreas não cobertas.
Outra forma de transmissão é a vertical, da gestante para o bebê. Quando a infecção não é tratada ou recebe tratamento inadequado durante a gravidez, pode provocar consequências graves, como aborto espontâneo, parto prematuro, natimortalidade, alterações ósseas, surdez, cegueira e morte neonatal.
A prevenção da sífilis congênita depende do diagnóstico oportuno, do tratamento adequado durante a gestação e do acompanhamento da gestante e de suas parcerias sexuais.
Os estágios da sífilis e o risco da falta de sintomas
A sífilis evolui em diferentes estágios, que podem ser acompanhados por períodos sem manifestações clínicas. A ausência de sintomas, porém, não significa que a infecção tenha desaparecido.
Sífilis primária
A manifestação inicial costuma ser uma ferida, geralmente única e indolor, chamada cancro duro. Ela aparece no local de entrada da bactéria, como os genitais, o ânus ou a boca. Por não provocar necessariamente dor ou desconforto, pode passar despercebida.
A lesão costuma desaparecer espontaneamente após algumas semanas, mesmo sem tratamento. Isso não significa que a pessoa esteja curada: a bactéria permanece no organismo.
Sífilis secundária
Sem tratamento, a infecção pode evoluir para a fase secundária, caracterizada pela disseminação da bactéria pelo organismo. Entre as manifestações possíveis estão manchas na pele, inclusive nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, além de febre, mal-estar e aumento dos gânglios linfáticos.
Os sintomas também podem regredir espontaneamente, mas a infecção continua presente.
Sífilis latente
Nessa fase, não há sinais ou sintomas aparentes, embora a infecção permaneça no organismo. A fase latente pode durar períodos variáveis, e o diagnóstico geralmente depende de testes laboratoriais e da avaliação do histórico clínico.
Sífilis terciária
Quando não tratada, a sífilis pode evoluir, após anos, para manifestações tardias que comprometem diferentes órgãos e sistemas. Entre as possíveis complicações estão lesões na pele e nos ossos, comprometimento cardiovascular e alterações neurológicas.
O comprometimento do sistema nervoso, conhecido como neurossífilis, também pode ocorrer em outros estágios da infecção. Por isso, a avaliação clínica e o tratamento oportuno são fundamentais para prevenir complicações.
Diagnóstico precoce: uma etapa essencial
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece testes rápidos para sífilis gratuitamente, com resultado disponível em até 30 minutos. O exame é realizado a partir de uma amostra de sangue e permite identificar anticorpos contra a bactéria.
Um resultado reagente precisa ser avaliado por um profissional de saúde, considerando o histórico de infecção e tratamento, os sintomas e a necessidade de exames complementares. Em situações específicas, como na gestação, o tratamento pode ser iniciado imediatamente após um teste reagente, conforme os protocolos do Ministério da Saúde.
A testagem é importante mesmo na ausência de sintomas, especialmente após uma possível exposição à infecção ou quando uma parceria sexual recebe o diagnóstico de sífilis.
Na gestação, o acompanhamento pré-natal deve incluir a testagem para sífilis na primeira consulta, no terceiro trimestre e no momento do parto ou em situações de aborto, conforme as recomendações do Ministério da Saúde.
Tratamento eficaz e prevenção de complicações
A sífilis tem cura, e a penicilina benzatina é o medicamento de escolha para o tratamento. O esquema terapêutico e o número de doses dependem do estágio da infecção e devem ser definidos por um profissional de saúde.
Durante a gestação, a penicilina é o único tratamento com eficácia documentada para tratar a infecção fetal e prevenir a sífilis congênita. Por isso, o diagnóstico e o início do tratamento o mais cedo possível são fundamentais para proteger a saúde da gestante e do bebê.
Além do tratamento da pessoa diagnosticada, as parcerias sexuais devem ser avaliadas e tratadas quando indicado, reduzindo o risco de reinfecção e contribuindo para interromper a cadeia de transmissão.
O tratamento adequado, o acompanhamento clínico e a realização dos exames indicados também são importantes para monitorar a resposta à terapia.
Informação e prevenção são fundamentais
O enfrentamento da sífilis exige mais do que o acesso a testes e medicamentos. A ampliação da informação, o acesso oportuno aos serviços de saúde, a realização da testagem, o tratamento adequado e o acompanhamento das parcerias sexuais são medidas essenciais para reduzir a transmissão e prevenir complicações.
O uso de preservativos continua sendo uma importante estratégia de prevenção. Também é fundamental procurar um serviço de saúde diante de uma possível exposição, mesmo sem sintomas.
É importante lembrar que ter sífilis e receber tratamento não gera imunidade permanente. Uma pessoa curada pode contrair a infecção novamente se for exposta à bactéria.
Durante o Outubro Verde, a conscientização sobre a doença reforça a importância do diagnóstico precoce, do cuidado durante a gestação e do acesso ao tratamento. A sífilis é curável, e sua transmissão pode ser prevenida com informação, prevenção e assistência adequada.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Sífilis. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [2026].
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico da Sífilis: número especial. Brasília, DF: Ministério da Saúde, out. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sífilis em gestantes. Brasília, DF: Ministério da Saúde.
BRASIL. Lei nº 13.430, de 31 de março de 2017. Institui o Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita. Brasília, DF: Presidência da República, 2017.
