Quando a campanha A Presença da Infectologia no Brasil se volta para fora dos grandes centros, ela amplia o mapa da especialidade e revela realidades que muitas vezes passam longe do olhar mais imediato sobre a saúde no país. Em regiões como Diamantina e o Vale do Jequitinhonha, a infectologia assume contornos muito próprios: ela se articula entre assistência, formação médica, educação continuada e promoção de saúde em territórios marcados por distâncias, desigualdades e vulnerabilidades históricas.
É nesse contexto que atua o Professor Homero Campos Reis, infectologista mineiro do interior, com formação pela Universidade Federal do Espírito Santo e residência em Ribeirão Preto, na USP. Sua trajetória profissional começou em meio à pandemia de influenza de 2009, passou pelo controle de infecção hospitalar, pelos ambulatórios de ISTs e hepatites, pela epidemiologia e, anos depois, também pela pandemia de Covid-19. Ao longo desse percurso, sua prática foi se consolidando cada vez mais em diálogo com a saúde pública, com a docência e com a atenção a populações em maior situação de vulnerabilidade.
Hoje, em Diamantina, esse trabalho ganha uma dimensão ainda mais territorial. O Vale do Jequitinhonha aparece como uma região de grande complexidade social e sanitária, onde a universidade pública cumpre papel essencial na sustentação da assistência, da formação e da produção de conhecimento. Nesse cenário, a infectologia não se limita ao atendimento clínico tradicional. Ela precisa compreender o território, acompanhar as dinâmicas da zona rural, reconhecer exposições específicas e dialogar com contextos que exigem uma leitura ampliada do processo de saúde e doença.
Essa perspectiva se expressa de forma muito clara no contato com populações quilombolas e comunidades rurais. Ao descrever esse campo de atuação, Homero chama atenção para a forma como vulnerabilidade social, baixa escolaridade, pobreza e dificuldade de acesso à saúde se combinam e ampliam o risco de adoecimento. Em áreas rurais e quilombolas, agravos como parasitoses intestinais, doença de Chagas e arboviroses ganham peso especial, não apenas por sua presença epidemiológica, mas pelos contextos sociais e ambientais em que se inserem.
Há, em sua trajetória, uma coerência importante entre assistência, pesquisa e formação. Seu mestrado foi voltado às infecções sexualmente transmissíveis em populações privadas de liberdade. Agora, no desenho do doutorado, o foco recai sobre doenças tropicais e impacto em qualidade de vida em populações quilombolas, buscando compreender como esses agravos atravessam o cotidiano dessas comunidades e de que maneira a universidade pode contribuir com ações de educação e promoção de saúde. Dengue, zika, chikungunya, doença de Chagas e outras infecções entram nessa leitura como parte de uma realidade concreta, que exige escuta, presença e produção de conhecimento situada.
Em Diamantina, a presença da infectologia também ajuda a evidenciar o papel estratégico da universidade pública no interior do país. Na macrorregião, há poucos especialistas, e o vínculo com a universidade se torna decisivo para manter uma presença qualificada da especialidade, seja na formação de novos médicos, seja na articulação com a rede pública, seja na produção de pesquisa conectada às necessidades locais. Nesse sentido, a universidade não aparece apenas como espaço acadêmico, mas como força estruturante para a permanência e a capilaridade da infectologia em territórios fora dos grandes centros.
Quando fala em potência, Homero aponta justamente para esse movimento. Para ele, uma das maiores forças do trabalho que desenvolve hoje é levar o estudante de medicina para fora dos grandes centros e colocá-lo diante de realidades que muitas vezes não aparecem com a devida profundidade na formação tradicional. Ao aproximar futuros médicos de comunidades rurais, populações vulnerabilizadas e doenças negligenciadas, esse percurso amplia repertórios, forma profissionais mais preparados para lidar com desigualdades concretas e transforma o estudante em multiplicador de uma visão mais ampla de saúde.
Ao lado dessa potência, aparecem também os desafios estruturais do território. Para Homero, a gestão pública ainda é um dos grandes pontos de atenção quando se pensa no cuidado dessas populações. Muitas dessas comunidades seguem pouco visibilizadas, o que repercute diretamente sobre a capacidade de resposta do sistema, sobre o investimento em ações permanentes e sobre a consolidação de estratégias mais robustas de promoção de saúde. Nesse contexto, o trabalho da universidade e dos profissionais que atuam mais próximos dessas populações ganha ainda mais relevância.
Outro aspecto central de sua leitura é a importância de olhar com mais atenção para as doenças negligenciadas, especialmente em um país de perfil tropical como o Brasil. Hanseníase, doença de Chagas, leishmaniose, esporotricose e parasitoses intestinais aparecem em sua fala como exemplos de agravos que ainda produzem impacto relevante sobre a vida das pessoas e que precisam seguir no horizonte da pesquisa, da assistência e da educação continuada. Mais do que listar doenças, esse olhar chama atenção para a necessidade de fortalecer respostas compatíveis com a realidade epidemiológica de diferentes territórios brasileiros.
Nesse sentido, o fortalecimento da infectologia passa também por uma agenda de base: pesquisa, educação continuada, formação e produção de dados que ajudem a traduzir as necessidades regionais em informação qualificada. Ao tornar mais visível onde estão os profissionais, como atuam e quais gargalos enfrentam, essa escuta pode contribuir para o aprimoramento das respostas em saúde e para uma compreensão mais precisa da distribuição da especialidade no país.
A experiência de Homero também ajuda a lembrar que a presença da infectologia no Brasil não se mede apenas pelo número absoluto de especialistas. Ela se mede pela capacidade de sustentar cuidado, formar novos profissionais, produzir conhecimento e construir respostas em territórios que muitas vezes exigem mais do que estrutura técnica: exigem permanência, compromisso e leitura sensível do contexto. No Vale do Jequitinhonha, essa presença se faz na sala de aula, na zona rural, nas ações de educação continuada, nas pesquisas voltadas a populações vulnerabilizadas e na atenção a agravos que ainda desafiam o país.
É justamente por isso que trajetórias como a do Professor Homero Campos Reis ajudam a ampliar o entendimento sobre o que significa, de fato, estar presente. Em regiões como Diamantina, a infectologia se constrói no encontro entre universidade, território e saúde pública. E é dessa escuta, atenta às diferentes realidades do Brasil, que pode surgir uma compreensão mais completa, mais justa e mais representativa da especialidade em todo o país.
Compreender a infectologia brasileira também é compreender o próprio Brasil.
Contribua com esta escuta qualificada sobre a prática, os desafios e as prioridades da especialidade no país.
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