No Acre, a Infectologia precisa chegar onde a estrada acaba e o rio decide o caminho – Dra. Cirley Lobato.

Na campanha A Presença da Infectologia no Brasil, olhar para fora dos grandes centros não é apenas uma escolha editorial. É uma forma de reposicionar a própria compreensão da infectologia no país. Em estados como o Acre, a especialidade ganha outros contornos, outras urgências e outra espessura. Ali, a prática infectológica não se organiza apenas dentro do hospital. Ela se move com o território, acompanha os ritmos da cheia e da seca, responde a doenças tropicais, cruza longas distâncias e se constrói em diálogo direto com realidades que o Brasil, muitas vezes, ainda enxerga pouco.

 

É nesse cenário que se inscreve a trajetória da infectologista Cirley Lobato, médica há mais de três décadas no Acre. Sua história se mistura à própria consolidação da infectologia no estado. Formada pela Universidade Federal do Amazonas, com especialização em Manaus e trajetória acadêmica também marcada por estudos em hepatites virais, ela chegou ao Acre em 1993, num momento em que a especialidade ainda ganhava corpo na região. Ao lado de outros colegas, participou do fortalecimento desse campo e acompanhou de perto sua expansão, especialmente a partir dos anos 2000, com a criação da residência médica em infectologia.

 

Mas talvez o ponto mais revelador de sua caminhada esteja menos nos títulos e mais no que sua prática passou a exigir. No Acre, ser infectologista é trabalhar em uma fronteira clínica e territorial muito própria. É lidar com malária, leishmaniose, hanseníase, hepatites virais, blastomicose e arboviroses em um ambiente marcado por desigualdades sociais, barreiras de acesso e condições epidemiológicas profundamente amazônicas. É também entender que, ali, a medicina não pode ser pensada sem a geografia. Há lugares onde se chega por estrada apenas em parte do ano. Há outros em que o acesso depende do nível dos rios. Há contextos em que a assistência especializada precisa ir até o paciente, e não o contrário.

 

Essa lógica aparece de forma concreta no trabalho com populações ribeirinhas e indígenas, atendidas em ações de saúde itinerante especializada. Em vez de esperar que essas pessoas consigam alcançar os centros de referência, a equipe se desloca para onde elas estão. Numa região em que os recursos de maior complexidade ainda se concentram sobretudo em Rio Branco, esse movimento não é acessório. Ele é parte essencial da presença da infectologia.

 

Também é nesse contexto que a especialidade revela algumas de suas singularidades mais fortes. Entre elas, o lugar das hepatites na prática clínica da região. Ao longo de sua trajetória, Cirley se dedicou especialmente a esse campo e chama atenção para o peso da hepatite Delta na Amazônia ocidental, uma realidade que ainda causa estranhamento fora desse território. Em sua experiência, trata-se de um quadro de enorme gravidade, com impacto importante sobre a progressão para cirrose e sobre o aparecimento precoce de complicações em pacientes jovens. É uma face da infectologia brasileira que nem sempre ganha centralidade nas discussões nacionais, embora seja decisiva para milhares de pessoas na região Norte.

 

Seu percurso acadêmico ajuda a iluminar esse mesmo território por outro ângulo. Ao investigar a transmissão intrafamiliar da hepatite B, ela encontrou uma causa que diz muito sobre vulnerabilidade e cotidiano: o compartilhamento de escovas de dente dentro de casa. O dado, mais do que uma curiosidade epidemiológica, expõe o modo como as condições materiais de vida atravessam o adoecimento. Em famílias numerosas e em contextos socioeconômicos frágeis, o risco se organiza de um jeito que não cabe em explicações genéricas. A infectologia, ali, precisa saber ler o ambiente doméstico, os hábitos e as limitações concretas da vida cotidiana.

 

No Acre, até a febre muda de significado. Em muitos serviços, diante de um paciente febril, o primeiro passo é pensar em malária. O que em outros pontos do país pode parecer uma hipótese remota, ali faz parte da rotina. O mesmo vale para os efeitos do desmatamento, das queimadas, das inundações e das transformações ambientais sobre a saúde coletiva. Arboviroses emergentes, mudanças no comportamento das doenças e novas pressões sobre populações vulneráveis passam a fazer parte de um mesmo quadro, em que clínica, vigilância e território se tornam inseparáveis.

 

Esse desenho impõe uma exigência profissional muito particular. A infectologia exercida na região não atua apenas na assistência hospitalar. Ela se distribui entre prevenção, atenção primária, qualificação de equipes, vigilância epidemiológica, comitês técnicos, vacinação, profilaxia pós-exposição, manejo de doenças negligenciadas e construção de respostas coletivas. Em muitos momentos, o infectologista precisa funcionar como clínico, articulador, educador e observador atento de processos sociais e ambientais ao mesmo tempo.

 

Ao lado dessa potência, aparecem os limites. A concentração de infectologistas na capital ainda é um dos principais gargalos do estado. A residência médica forma novos profissionais, mas as vagas são insuficientes para a demanda. Muitos concluem a formação e deixam a região. No interior, a carência de especialistas se soma à dificuldade de acesso a exames, tratamentos e seguimento de maior complexidade. Mesmo quando o diagnóstico inicial é possível no município de origem, parte importante da assistência ainda depende de deslocamento até Rio Branco.

 

Há ainda outros tensionamentos importantes. O aumento de bactérias multirresistentes no principal hospital terciário do estado preocupa profissionais da área, especialmente diante da dificuldade de acesso a antibióticos específicos e da dependência de repasses federais para ampliar disponibilidade terapêutica. Ao mesmo tempo, o uso inadequado de antibióticos segue como problema persistente, inclusive em contextos em que o medicamento ainda circula com menos controle do que deveria. Quando se fala em resistência antimicrobiana, o debate sobre stewardship ganha, ali, uma dimensão ainda mais urgente.

 

Nem por isso o quadro se resume à escassez. A telemedicina surge como uma mudança concreta na maneira de sustentar cuidado em um território de grandes distâncias. O telediagnóstico, o treinamento remoto e a discussão de casos têm ampliado a segurança de profissionais que atuam nos municípios mais distantes e, ao mesmo tempo, reduzido deslocamentos desnecessários para a capital. Não se trata de uma solução total, mas de uma ferramenta que começou a reorganizar o modo como a rede se conecta e responde às necessidades locais.

 

No fundo, o que a trajetória de Cirley Lobato torna visível é algo maior do que uma experiência individual. Ela ajuda a mostrar que a infectologia brasileira não é uma só. Existem muitas formas de exercê-la, porque existem muitos Brasis dentro do Brasil. Em alguns lugares, o desafio é a alta complexidade tecnológica. Em outros, é fazer a assistência atravessar rios, vencer a distância, lidar com doenças negligenciadas, adaptar protocolos nacionais e construir respostas possíveis para realidades que não cabem no centro do país.

 

É justamente por isso que a campanha A Presença da Infectologia no Brasil propõe escuta. Escutar, aqui, não como gesto protocolar, mas como caminho para reconhecer diferenças, produzir visibilidade e fortalecer a especialidade a partir das suas múltiplas realidades. No Acre, essa presença se revela em barcos, estradas interrompidas, equipes itinerantes, febres que pedem leitura epidemiológica imediata, hepatites de alta gravidade, telemedicina, formação local e persistência. Uma presença que, para existir de fato, precisa ir muito além dos mapas institucionais e alcançar o país real.

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