Na campanha A Presença da Infectologia no Brasil, olhar para o interior não é apenas sair do eixo das capitais. É perceber que, longe dos grandes centros, a infectologia assume outra densidade. Muda a escala da assistência, muda a forma como a demanda chega, muda o tempo de resposta, muda até o modo como a especialidade é percebida dentro da rede. No sul do Ceará, essa presença ganha contornos muito concretos: poucos especialistas para uma população extensa, uma região que concentra fluxos de muitos municípios e uma prática que precisa dar conta, ao mesmo tempo, da alta demanda, da prevenção e do cuidado contínuo.
É nesse território que atua Pablo Pita, infectologista formado no próprio Cariri, com residência concluída em Recife e uma decisão tomada ainda durante a especialização: voltar. Voltar porque a região tinha poucos infectologistas. Voltar porque havia uma lacuna real de assistência. Voltar porque, para ele, fazia sentido construir a própria trajetória justamente onde a especialidade ainda precisava ganhar mais corpo. Hoje, sua prática se distribui entre o SUS, a rede privada e a assistência hospitalar, em uma rotina híbrida que reflete bem o que é sustentar a infectologia em uma região estratégica, mas ainda subdimensionada em número de profissionais.
O Cariri, nesse caso, não é apenas um recorte geográfico. É uma zona de convergência. Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha formam um eixo urbano que organiza serviços, deslocamentos e referências para uma área muito maior. Quando se observa o entorno, a região alcança cerca de 1 milhão de habitantes. Para esse universo, são cinco infectologistas em atividade. O dado, por si só, já diz muito. Ele fala de presença, mas também de escassez. Fala de compromisso, mas também de sobrecarga. Fala de uma especialidade que está ali, mas ainda em número insuficiente para responder com a velocidade e a abrangência que o território exige.
Essa diferença aparece de forma muito clara no cotidiano do cuidado. Em Crato, onde Pablo atua de forma mais estruturada dentro da rede municipal, o fluxo consegue ser mais ágil: diagnóstico e início de tratamento podem acontecer em menos de uma semana. Já em Juazeiro, onde a demanda é muito maior e o atendimento é mais enxuto, o tempo se alonga. Há pacientes aguardando 60, 90 dias por consulta. Não porque a necessidade seja menor, mas justamente pelo contrário: porque a procura é alta e a capacidade instalada não acompanha o volume de casos e acompanhamentos. A consequência é um represamento silencioso, que afeta tanto o cuidado individual quanto a organização da rede.
Ao mesmo tempo, sua fala desmonta uma ideia simplista de que estar fora da capital significa, necessariamente, estar à margem de toda estrutura. No campo terapêutico, por exemplo, ele descreve uma rede relativamente bem organizada, com suporte do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual, especialmente no cuidado das infecções sexualmente transmissíveis e do HIV. A logística pode impor pequenos atrasos em situações específicas, mas não chega a comprometer de forma decisiva o tratamento. Há, inclusive, um reconhecimento muito claro de que esse arranjo funciona como uma espécie de circuito próprio dentro do SUS, com farmácia, farmacêutico e dinâmica de gestão mais organizada para garantir continuidade do cuidado.
Também do ponto de vista laboratorial, o cenário descrito é de boa capacidade de resposta. O LACEN, segundo ele, dá conta da quase totalidade dos exames necessários, e a rapidez em alguns resultados chega a superar a de serviços privados. A incorporação de sistemas digitais para laudos e prescrições também aparece como um ganho importante nos últimos anos, sobretudo em uma especialidade em que o volume de formulários, notificações e documentos consome parte relevante do trabalho. Ainda assim, permanecem lacunas. O prontuário eletrônico ainda não está plenamente implantado nos serviços em que atua, e algumas tecnologias diagnósticas novas ainda chegam de forma desigual entre os municípios.
No plano epidemiológico, o Cariri guarda uma especificidade que merece atenção particular: a leishmaniose. Embora a região compartilhe boa parte do cenário infeccioso que circula nacionalmente — com surtos de influenza, meningite e outras doenças que acompanham fluxos populacionais e mobilidade —, a leishmaniose tegumentar e visceral aparece como um dos traços mais marcantes da prática local. Trata-se de uma endemia importante, com forte presença regional e com produção acadêmica própria em universidades da área. Nesse sentido, o interior não surge como periferia do conhecimento, mas como lugar de elaboração concreta de respostas para problemas que o país nem sempre enxerga com a mesma intensidade.
Talvez um dos pontos mais sensíveis dessa paisagem esteja na formação e na distribuição dos especialistas. No Ceará, a formação em infectologia se concentra em Fortaleza. As residências, os hospitais de referência e as estruturas mais tradicionais da especialidade seguem drenando o eixo da capital. O interior permanece com poucos nomes, pouca renovação local e baixa capilaridade institucional. Nos últimos anos, esse cenário começou a mudar um pouco, com maior aproximação entre a sociedade estadual e os profissionais do Cariri, mais troca de informações e mais inclusão desses especialistas em mesas e discussões. Ainda assim, o desenho continua revelando um país em que a presença da infectologia não se distribui de forma homogênea.
É justamente aí que a fala de Pablo ganha força política. Para ele, fortalecer a infectologia nas diferentes regiões do Brasil passa menos por um gesto simbólico e mais por medidas estruturais. Uma das ideias que levanta é a criação de políticas públicas que assegurem a presença do infectologista a partir de parâmetros concretos de demanda — de forma semelhante ao que já existe em outras normativas hospitalares, como as relacionadas à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar. A lógica é simples e poderosa: se determinados serviços concentram um número expressivo de pacientes, precisam também contar formalmente com esse profissional em sua estrutura. Isso ajudaria a reduzir sobrecarga, ampliar acesso, fixar especialistas fora dos grandes centros e dar mais consistência à rede.
O que aparece nesse raciocínio não é apenas uma reivindicação corporativa. É uma visão de saúde pública. Ao falar da infectologia, Pablo insiste em um aspecto que atravessa a especialidade em qualquer lugar do país: sua vocação para prevenir, racionalizar recursos e atuar antes que o problema se agrave. Muitas vezes, diz ele, o infectologista ainda é chamado apenas quando o caso já se complicou, quando o tratamento empírico falhou, quando “já foi feito de tudo”. Nesse modelo, a especialidade entra tardiamente. E entra não como parte da construção do cuidado, mas como última tentativa. Reconhecer a presença do infectologista desde antes — na prevenção, no manejo precoce, na orientação de condutas, no uso racional de antimicrobianos, na sustentabilidade do sistema — talvez seja uma das mudanças mais urgentes que essa escuta nacional pode ajudar a produzir.
Essa percepção se torna ainda mais forte quando atravessada pela memória da pandemia. No Cariri, como em tantas outras regiões do país, a infectologia precisou sair das comissões, dos protocolos e das discussões técnicas para assumir linha de frente assistencial. Houve deslocamento de função, sobrecarga, luto, tensão política, reorganização hospitalar e um esforço intenso para sustentar condutas baseadas em evidência em meio ao caos. Ao relembrar esse período, o que fica não é apenas o trauma de uma emergência sanitária recente, mas a confirmação de que regiões fora do eixo central também precisaram responder com densidade, rapidez e compromisso técnico.
No fundo, a presença da infectologia no Cariri revela uma verdade maior sobre o Brasil: não basta contar quantos especialistas existem. É preciso perguntar onde eles estão, como trabalham, com que estrutura contam, quanto conseguem alcançar e quantas ausências ainda precisam compensar todos os dias. Em regiões como o sul do Ceará, a infectologia existe com potência, inteligência e capacidade de resposta. Mas existe também sob pressão, tentando abrir espaço entre a demanda reprimida, a centralização da formação e a falta de políticas que transformem necessidade assistencial em presença estruturada.
É por isso que ouvir o interior importa. Porque o interior não é margem: é território vivo, polo regional, corredor de cuidado, ponto de convergência e lugar onde a especialidade se reinventa para continuar existindo. No Cariri, essa presença se faz no retorno de quem escolheu voltar, na rotina repartida entre cidades, na resposta rápida quando a rede permite, na espera quando ela não dá conta, na endemicidade da leishmaniose, na defesa de políticas mais justas e na insistência de que a infectologia precisa ser reconhecida não apenas como último recurso, mas como parte essencial da construção do cuidado desde o começo.
Compreender a infectologia brasileira também é compreender o próprio Brasil.
Contribua com esta escuta qualificada sobre a prática, os desafios e as prioridades da especialidade no país.
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